quarta-feira, 11 de maio de 2011

memorabília

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a gente andava pra todo canto de bicicleta, e naquela época éramos mais ou menos super heróis. longe das nossas ruas éramos só um bando de perdedores, e não deixávamos os apelidos que tínhamos na escola chegarem em casa. mas eu não me importava muito, porque tinha minha bicicleta e as tardes do mundo.
usávamos nomes secretos - que também não chegavam em casa - e cores especiais e palavras mágicas. salvamos um gatinho ou outro, pegamos sarna e pulamos muros das casas abandonadas. papai fez questão de explicar que as casas que ainda não tinham sido alugadas não estavam abandonadas, mas a diferença era sutil demais e preferimos não entender.

caímos de árvores altas demais pro nosso próprio bem e fomos retirar pregos dos pés no hospital. no fim do dia éramos só sujeira e êxtase, areia cueca e calcinha adentro; dessa época trago umas cicatrizes, umas manchas de jamelão nas roupas, não importa quanto eu lave.

geralmente andávamos em seis, três duplas de irmãos. mas de vez em quando uma ou outra das crianças menores grudava no nosso pé, então num bom dia podíamos ser oito ou nove. e é claro que arrumávamos briga com os garotos maiores, e é claro que nos uníamos com os garotos maiores contra os garotos dos outros condomínios, e é claro que todo mundo confraternizava diante de uma possibilidade maior de aventura, ou de um dia na piscina na casa de alguém (piscinas eram valorizadas acima de tudo). até nossa piscininha de plástico no quintal era disputada; até a hora que mamãe decidia jogar a água fora, já cheia de terra e cabelos de todas as crianças possíveis - dos meus melhores amigos até meus piores inimigos, que a política da infância tem menos princípios que a dos adultos.

numa dessas vezes em que éramos só nós seis, achamos um mico morto jogado na calçada. porque era engraçado, demos um nome pra ele. Cuti foi devidamente atrelado na frente de uma das bicicletas, e saímos pra fazer uma coisa ou outra. descer de um barranco em alta velocidade ou quebrar cascas de lesmas, ou discutir quem devia ficar na frente na nossa formação de bicicletas - competição baseada nas nossas habilidades pessoais e personalidades, onde os irmãos mais novos não tinham chance alguma.

Cuti aproveitou o dia com a gente, mas tinha o terrível hábito de juntar moscas. alguém deu a idéia de fazermos um enterro, e logo tudo se transformou num grande evento cheio de pompa e ritual, com rezas secretas e mais de três espécies de pétalas de flores. o túmulo de Cuti virou nosso lugar sagrado, em cima de um morro alto, onde não costumávamos brincar porque as árvores de lá não eram nem de subir nem de dar frutas.

veio a época das chuvas. brincamos nas alagações e acabamos de castigo. mudamos nossa base de operações pra dentro das casas, e as bicicletas passaram a ser só transporte por um tempo. aposto que cada um de nós pediu desculpas silenciosas pra elas por isso. montamos uma casa da barbie gigantesca na varanda, juntando todas as nossas roupinhas e móveis, e os meninos desertaram por uns dias. tínhamos torneios infinitos de video-game, porque quem perdia nunca admitia; desenhamos ouvindo a chuva e fizemos uma história em quadrinhos sobre nossas duplas identidades - crianças normais na escola, heróis em suas super bicicletas de tarde. inventamos complicadas histórias de detetive para serem encenadas em qualquer das casas onde os pais tivessem fora de vista, e comemos pipoca vendo desenho nos dias em que os pais não puderam ser tirados do caminho. minhas tartarugas sumiram na lama do jardim, e meu cachorro passava horas comigo na rede enquanto eu lia, dois preguiçosos.

quando estávamos quase cansando da chuva, ela parou. passamos uns dias cautelosos no nosso território, agora cheio de lama e árvores escorregadias. os dias ainda estavam cinzas e frios, e todos tinham que sair de casaco, por isso estávamos quase quietos - a bronca por sujar um casaco não valia o risco.

num dos dias quietos, decidimos desenterrar Cuti. estávamos entediados e curiosos, e lembro que inventamos uma história de um tesouro escondido debaixo do túmulo - apesar de sabermos que não havia tesouro nenhum, já que fomos nós mesmos que cavamos o buraco. ou talvez esse tipo de lógica não passasse pelas nossas cabeças. de qualquer forma, seria divertido todo o ritual e contra-mágicas que teríamos que realizar, fora o desafio de ir e voltar sem sujar os casacos.
subimos o morro enlameado a pé, as bicicletas nos esperando encostadas num muro não terminado; depois de darmos as mãos e fazermos tudo como devíamos - lembro de uma música e uns gestos específicos que todos tinham que saber de cor - começamos a cavar com pedaços de pau. a terra molhada cedeu fácil, e quando achamos o corpo ficamos calados. rodeamos ele em silêncio, uns chegando mais perto, outros se afastando devagar. mas cada um do seu jeito deu uma boa olhada no que um dia tinha sido um mico. não existia mais Cuti. aquilo que desenterramos não compartilhava mais nenhuma semelhança com qualquer coisa que pudéssemos reconhecer - era só um conjunto disforme de pêlos, ossinhos e vermes (um bocado de vermes).

esquecemos da história do tesouro e enterramos Cuti de novo, sem dizer palavra. alguém deve ter feito algum comentário depois, - que nojo, que legal, imaginem só - e os outros devem ter respondido - é mesmo, aham - mas só me lembro de uma sensação horrível de constrangimento. acabamos voltando, cada um pra sua casa, em completo silêncio. os irmãos mais velhos na frente, os irmãos menores atrás.

nos próximos dias o sol secou tudo e pudemos voltar pra nossas vidas de super heróis insuspeitos; vida que só ia durar até uns poucos anos depois disso. fomos crescendo, a escola ficou mais importante, os apelidos menos cruéis. não dizíamos mais vamos brincar, dizíamos vamos sair; e as bicicletas passaram de uma vez por todas a mero transporte, como numa temporada de chuvas duradoura - infinita - embora eu secretamente usasse o nome mágico da minha, por muitos anos ainda, se ninguém tivesse por perto pra ouvir.

quem cresceu primeiro se afastou; de repente, tudo que compartilhamos e tudo que fizemos era um fardo difícil de carregar. e aquele constrangimento que pairou no ar no dia do desenterro também virou permanente - quando nos reuníamos parecia que não nos encaixávamos mais nas novas vidas uns dos outros. acho que era mais fácil ingressar no tal mundo dos crescidos se nos esquecéssemos; se esquecéssemos que houve um tempo em que não pertencíamos a lugar algum, além de uns aos outros.

hoje somos adultos e nunca mais vi nenhum dos outros. mas tenho meu irmão - e de vez em quando nos lembramos dessa época. de quando éramos crianças e (como todas as crianças) aprendemos sobre pequenas coisas - amizade, vergonha, morte.



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5 comentários:

Lílian Alcântara disse...

minha irmã me recomendou, e se não fosse estranho demais eu recomendaria de novo a ela... muito bom este texto, muito mesmo... viagem de volta ao passado...

Mario Sant´Ana disse...

que saudade dos meus primeiros anos de bahia, todos empregados e impregnados da doce convivência com minhas crianças aventureiras. te amo muito nina.

Nou disse...

É, infânca é um troço nostálgico pra danar....

Isadora Marques disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isadora Marques disse...

Amei seu texto Marina! Minha infância também foi assim, toda sujinha de barro hahaha saudades!