...
- tinha um muro, um muro, me separando das coisas. as coisas que tavam atrás dele, sabe?
- hum.
- aí eu fiquei ali parada, olhando, e senti que
- você vai querer café?
- quê?
- café. quer café?
- não, não quero café porra. quero contar a porra do sonho.
- tá. continue então.
- e eu sabia que eu precisava chegar do outro lado, mas o muro era tão assustador. sabe aquele muro que parece que tem vida própria no filme do pink floyd? eu quero sim.
- hum?
- café. eu vou querer sim.
- toma aqui o meu, vou pegar outra xícara.
- espera. porque você acha que isso acontece?
- foi só um sonho, amor.
- não! não o sonho, isso. isso que sempre acontece, eu tentando me explicar, você preocupado com o café ou com qualquer merda prática. eu tô sempre sonhando e você tá sempre fazendo.
- cada um com seu papel no mundo.
- ah, qual é meu papel então? ser inútil?
- me encher o saco todo dia de manhã pra me fazer um homem feliz.
- ha-ha.
- você pode abrir uma casa de interpretação de sonhos.
- é, eu me vestiria de cigana.
- aham. pode tirar o tarô também.
- sonhei outra coisa. tinha um cara me mostrando umas fotos muito macabras, e uns jornais antigos com uns textos, e eu não conseguia ler mas eu sabia que eram horríveis. e eu tentava ser simpática e compreensiva com ele, porque eu tava com medo.
- medo do que?
- eu sabia que ele era o norman bates, e eu ia ser a primeira vítima.
- pfff.
- é sério! foi assustador. ele queria fazer uma cirurgia de mudança de sexo, e ficava perguntando minha opinião enquanto me mostrava as fotos estranhas.
- um sonho lindo.
- também sonhei que mamãe me dava uma calcinha rosa, com rendinhas pretas, e eu queria usar com você e foder. mas você queria desembaraçar meu cabelo não sei porque. eu fiquei ali sentada na cama, esperando você terminar com o cabelo, mas você tava penteando ele todo errado.
- aham. peraí que vou pegar mais café.
- ah, mas eu esqueci de terminar o do muro.
- muro do pink floyd, norman bates, calcinha e sua mãe. é o suficiente pra uma manhã. agora pegue isso e escreva uma história.
- é, um filme-de-arte pretensioso e nonsense. como vou encaixar uma coisa na outra?
- pra fazer um filme?
- não, idiota. pra entender!
- espere até hoje de noite e sonhe de novo.
- hum, provavelmente vou sonhar com um quebra-cabeça gigantesco e sem solução. eu sei qual é a figura, mas as peças tão faltando, tá tudo uma bagunça, e as pessoas passam por mim e chutam as peças pra longe.
- aí você descobre que tá no reino das metáforas imbecis.
- é isso que falta!
- o quê, sua louca?
- continuidade. sabe? eu preciso aprender a encaixar as coisas.
- seu café tá esfriando, meu amor.
- encaixar. é que eu não consigo, sabe? parece que eu nunca termino o que começo, parece que tudo o que eu faço sempre acaba ficando incompl
4 comentários:
HAHAHAHAHAHA
ei moça, gostei!
isso foi uma conversa que a gente teve ? eu me senti conversando com você
isso foi uma conversa que a gente teve ? eu me senti conversando com você
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