...
tenho raiva das formigas
antes não tinha; agora tenho
raiva das formigas e da poeira
que vão liquidando pouco a pouco
tudo que possuo
- ladrões também
não há tempo
de comprar veneno
de tirar o pó
- sou muito ocupada
e tenho grandes pensamentos
que mal posso suportar
apesar de que
ontem mesmo surpreendi
uma formiga sorrateira
a sair de meu ouvido direito
no que desconfio que até mesmo isso
estejam me levando.
Mañana
sábado, 19 de novembro de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
memorabília
...
a gente andava pra todo canto de bicicleta, e naquela época éramos mais ou menos super heróis. longe das nossas ruas éramos só um bando de perdedores, e não deixávamos os apelidos que tínhamos na escola chegarem em casa. mas eu não me importava muito, porque tinha minha bicicleta e as tardes do mundo.
usávamos nomes secretos - que também não chegavam em casa - e cores especiais e palavras mágicas. salvamos um gatinho ou outro, pegamos sarna e pulamos muros das casas abandonadas. papai fez questão de explicar que as casas que ainda não tinham sido alugadas não estavam abandonadas, mas a diferença era sutil demais e preferimos não entender.
caímos de árvores altas demais pro nosso próprio bem e fomos retirar pregos dos pés no hospital. no fim do dia éramos só sujeira e êxtase, areia cueca e calcinha adentro; dessa época trago umas cicatrizes, umas manchas de jamelão nas roupas, não importa quanto eu lave.
geralmente andávamos em seis, três duplas de irmãos. mas de vez em quando uma ou outra das crianças menores grudava no nosso pé, então num bom dia podíamos ser oito ou nove. e é claro que arrumávamos briga com os garotos maiores, e é claro que nos uníamos com os garotos maiores contra os garotos dos outros condomínios, e é claro que todo mundo confraternizava diante de uma possibilidade maior de aventura, ou de um dia na piscina na casa de alguém (piscinas eram valorizadas acima de tudo). até nossa piscininha de plástico no quintal era disputada; até a hora que mamãe decidia jogar a água fora, já cheia de terra e cabelos de todas as crianças possíveis - dos meus melhores amigos até meus piores inimigos, que a política da infância tem menos princípios que a dos adultos.
numa dessas vezes em que éramos só nós seis, achamos um mico morto jogado na calçada. porque era engraçado, demos um nome pra ele. Cuti foi devidamente atrelado na frente de uma das bicicletas, e saímos pra fazer uma coisa ou outra. descer de um barranco em alta velocidade ou quebrar cascas de lesmas, ou discutir quem devia ficar na frente na nossa formação de bicicletas - competição baseada nas nossas habilidades pessoais e personalidades, onde os irmãos mais novos não tinham chance alguma.
Cuti aproveitou o dia com a gente, mas tinha o terrível hábito de juntar moscas. alguém deu a idéia de fazermos um enterro, e logo tudo se transformou num grande evento cheio de pompa e ritual, com rezas secretas e mais de três espécies de pétalas de flores. o túmulo de Cuti virou nosso lugar sagrado, em cima de um morro alto, onde não costumávamos brincar porque as árvores de lá não eram nem de subir nem de dar frutas.
veio a época das chuvas. brincamos nas alagações e acabamos de castigo. mudamos nossa base de operações pra dentro das casas, e as bicicletas passaram a ser só transporte por um tempo. aposto que cada um de nós pediu desculpas silenciosas pra elas por isso. montamos uma casa da barbie gigantesca na varanda, juntando todas as nossas roupinhas e móveis, e os meninos desertaram por uns dias. tínhamos torneios infinitos de video-game, porque quem perdia nunca admitia; desenhamos ouvindo a chuva e fizemos uma história em quadrinhos sobre nossas duplas identidades - crianças normais na escola, heróis em suas super bicicletas de tarde. inventamos complicadas histórias de detetive para serem encenadas em qualquer das casas onde os pais tivessem fora de vista, e comemos pipoca vendo desenho nos dias em que os pais não puderam ser tirados do caminho. minhas tartarugas sumiram na lama do jardim, e meu cachorro passava horas comigo na rede enquanto eu lia, dois preguiçosos.
quando estávamos quase cansando da chuva, ela parou. passamos uns dias cautelosos no nosso território, agora cheio de lama e árvores escorregadias. os dias ainda estavam cinzas e frios, e todos tinham que sair de casaco, por isso estávamos quase quietos - a bronca por sujar um casaco não valia o risco.
num dos dias quietos, decidimos desenterrar Cuti. estávamos entediados e curiosos, e lembro que inventamos uma história de um tesouro escondido debaixo do túmulo - apesar de sabermos que não havia tesouro nenhum, já que fomos nós mesmos que cavamos o buraco. ou talvez esse tipo de lógica não passasse pelas nossas cabeças. de qualquer forma, seria divertido todo o ritual e contra-mágicas que teríamos que realizar, fora o desafio de ir e voltar sem sujar os casacos.
subimos o morro enlameado a pé, as bicicletas nos esperando encostadas num muro não terminado; depois de darmos as mãos e fazermos tudo como devíamos - lembro de uma música e uns gestos específicos que todos tinham que saber de cor - começamos a cavar com pedaços de pau. a terra molhada cedeu fácil, e quando achamos o corpo ficamos calados. rodeamos ele em silêncio, uns chegando mais perto, outros se afastando devagar. mas cada um do seu jeito deu uma boa olhada no que um dia tinha sido um mico. não existia mais Cuti. aquilo que desenterramos não compartilhava mais nenhuma semelhança com qualquer coisa que pudéssemos reconhecer - era só um conjunto disforme de pêlos, ossinhos e vermes (um bocado de vermes).
esquecemos da história do tesouro e enterramos Cuti de novo, sem dizer palavra. alguém deve ter feito algum comentário depois, - que nojo, que legal, imaginem só - e os outros devem ter respondido - é mesmo, aham - mas só me lembro de uma sensação horrível de constrangimento. acabamos voltando, cada um pra sua casa, em completo silêncio. os irmãos mais velhos na frente, os irmãos menores atrás.
nos próximos dias o sol secou tudo e pudemos voltar pra nossas vidas de super heróis insuspeitos; vida que só ia durar até uns poucos anos depois disso. fomos crescendo, a escola ficou mais importante, os apelidos menos cruéis. não dizíamos mais vamos brincar, dizíamos vamos sair; e as bicicletas passaram de uma vez por todas a mero transporte, como numa temporada de chuvas duradoura - infinita - embora eu secretamente usasse o nome mágico da minha, por muitos anos ainda, se ninguém tivesse por perto pra ouvir.
quem cresceu primeiro se afastou; de repente, tudo que compartilhamos e tudo que fizemos era um fardo difícil de carregar. e aquele constrangimento que pairou no ar no dia do desenterro também virou permanente - quando nos reuníamos parecia que não nos encaixávamos mais nas novas vidas uns dos outros. acho que era mais fácil ingressar no tal mundo dos crescidos se nos esquecéssemos; se esquecéssemos que houve um tempo em que não pertencíamos a lugar algum, além de uns aos outros.
hoje somos adultos e nunca mais vi nenhum dos outros. mas tenho meu irmão - e de vez em quando nos lembramos dessa época. de quando éramos crianças e (como todas as crianças) aprendemos sobre pequenas coisas - amizade, vergonha, morte.
...
a gente andava pra todo canto de bicicleta, e naquela época éramos mais ou menos super heróis. longe das nossas ruas éramos só um bando de perdedores, e não deixávamos os apelidos que tínhamos na escola chegarem em casa. mas eu não me importava muito, porque tinha minha bicicleta e as tardes do mundo.
usávamos nomes secretos - que também não chegavam em casa - e cores especiais e palavras mágicas. salvamos um gatinho ou outro, pegamos sarna e pulamos muros das casas abandonadas. papai fez questão de explicar que as casas que ainda não tinham sido alugadas não estavam abandonadas, mas a diferença era sutil demais e preferimos não entender.
caímos de árvores altas demais pro nosso próprio bem e fomos retirar pregos dos pés no hospital. no fim do dia éramos só sujeira e êxtase, areia cueca e calcinha adentro; dessa época trago umas cicatrizes, umas manchas de jamelão nas roupas, não importa quanto eu lave.
geralmente andávamos em seis, três duplas de irmãos. mas de vez em quando uma ou outra das crianças menores grudava no nosso pé, então num bom dia podíamos ser oito ou nove. e é claro que arrumávamos briga com os garotos maiores, e é claro que nos uníamos com os garotos maiores contra os garotos dos outros condomínios, e é claro que todo mundo confraternizava diante de uma possibilidade maior de aventura, ou de um dia na piscina na casa de alguém (piscinas eram valorizadas acima de tudo). até nossa piscininha de plástico no quintal era disputada; até a hora que mamãe decidia jogar a água fora, já cheia de terra e cabelos de todas as crianças possíveis - dos meus melhores amigos até meus piores inimigos, que a política da infância tem menos princípios que a dos adultos.
numa dessas vezes em que éramos só nós seis, achamos um mico morto jogado na calçada. porque era engraçado, demos um nome pra ele. Cuti foi devidamente atrelado na frente de uma das bicicletas, e saímos pra fazer uma coisa ou outra. descer de um barranco em alta velocidade ou quebrar cascas de lesmas, ou discutir quem devia ficar na frente na nossa formação de bicicletas - competição baseada nas nossas habilidades pessoais e personalidades, onde os irmãos mais novos não tinham chance alguma.
Cuti aproveitou o dia com a gente, mas tinha o terrível hábito de juntar moscas. alguém deu a idéia de fazermos um enterro, e logo tudo se transformou num grande evento cheio de pompa e ritual, com rezas secretas e mais de três espécies de pétalas de flores. o túmulo de Cuti virou nosso lugar sagrado, em cima de um morro alto, onde não costumávamos brincar porque as árvores de lá não eram nem de subir nem de dar frutas.
veio a época das chuvas. brincamos nas alagações e acabamos de castigo. mudamos nossa base de operações pra dentro das casas, e as bicicletas passaram a ser só transporte por um tempo. aposto que cada um de nós pediu desculpas silenciosas pra elas por isso. montamos uma casa da barbie gigantesca na varanda, juntando todas as nossas roupinhas e móveis, e os meninos desertaram por uns dias. tínhamos torneios infinitos de video-game, porque quem perdia nunca admitia; desenhamos ouvindo a chuva e fizemos uma história em quadrinhos sobre nossas duplas identidades - crianças normais na escola, heróis em suas super bicicletas de tarde. inventamos complicadas histórias de detetive para serem encenadas em qualquer das casas onde os pais tivessem fora de vista, e comemos pipoca vendo desenho nos dias em que os pais não puderam ser tirados do caminho. minhas tartarugas sumiram na lama do jardim, e meu cachorro passava horas comigo na rede enquanto eu lia, dois preguiçosos.
quando estávamos quase cansando da chuva, ela parou. passamos uns dias cautelosos no nosso território, agora cheio de lama e árvores escorregadias. os dias ainda estavam cinzas e frios, e todos tinham que sair de casaco, por isso estávamos quase quietos - a bronca por sujar um casaco não valia o risco.
num dos dias quietos, decidimos desenterrar Cuti. estávamos entediados e curiosos, e lembro que inventamos uma história de um tesouro escondido debaixo do túmulo - apesar de sabermos que não havia tesouro nenhum, já que fomos nós mesmos que cavamos o buraco. ou talvez esse tipo de lógica não passasse pelas nossas cabeças. de qualquer forma, seria divertido todo o ritual e contra-mágicas que teríamos que realizar, fora o desafio de ir e voltar sem sujar os casacos.
subimos o morro enlameado a pé, as bicicletas nos esperando encostadas num muro não terminado; depois de darmos as mãos e fazermos tudo como devíamos - lembro de uma música e uns gestos específicos que todos tinham que saber de cor - começamos a cavar com pedaços de pau. a terra molhada cedeu fácil, e quando achamos o corpo ficamos calados. rodeamos ele em silêncio, uns chegando mais perto, outros se afastando devagar. mas cada um do seu jeito deu uma boa olhada no que um dia tinha sido um mico. não existia mais Cuti. aquilo que desenterramos não compartilhava mais nenhuma semelhança com qualquer coisa que pudéssemos reconhecer - era só um conjunto disforme de pêlos, ossinhos e vermes (um bocado de vermes).
esquecemos da história do tesouro e enterramos Cuti de novo, sem dizer palavra. alguém deve ter feito algum comentário depois, - que nojo, que legal, imaginem só - e os outros devem ter respondido - é mesmo, aham - mas só me lembro de uma sensação horrível de constrangimento. acabamos voltando, cada um pra sua casa, em completo silêncio. os irmãos mais velhos na frente, os irmãos menores atrás.
nos próximos dias o sol secou tudo e pudemos voltar pra nossas vidas de super heróis insuspeitos; vida que só ia durar até uns poucos anos depois disso. fomos crescendo, a escola ficou mais importante, os apelidos menos cruéis. não dizíamos mais vamos brincar, dizíamos vamos sair; e as bicicletas passaram de uma vez por todas a mero transporte, como numa temporada de chuvas duradoura - infinita - embora eu secretamente usasse o nome mágico da minha, por muitos anos ainda, se ninguém tivesse por perto pra ouvir.
quem cresceu primeiro se afastou; de repente, tudo que compartilhamos e tudo que fizemos era um fardo difícil de carregar. e aquele constrangimento que pairou no ar no dia do desenterro também virou permanente - quando nos reuníamos parecia que não nos encaixávamos mais nas novas vidas uns dos outros. acho que era mais fácil ingressar no tal mundo dos crescidos se nos esquecéssemos; se esquecéssemos que houve um tempo em que não pertencíamos a lugar algum, além de uns aos outros.
hoje somos adultos e nunca mais vi nenhum dos outros. mas tenho meu irmão - e de vez em quando nos lembramos dessa época. de quando éramos crianças e (como todas as crianças) aprendemos sobre pequenas coisas - amizade, vergonha, morte.
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Nina.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
férias
a skill do novo milênio
pesquisar passagens de avião
você penteia meu cabelo em são paulo
enquanto pensamos se o dinheiro vai durar
até recife -
o mercado imobiliário do rio de janeiro
nos fez voltar a fumar
eu penso em casamento
mas você não toma uma coca
paramos pra três cervejas
ficamos pro jantar
você cozinha
(em qualquer lugar)
passo uma tarde sozinha em campinas
porque você precisa de um tempo
com seu pai -
penso em salvador
e em foder rapidinho
entre uma vó e outra
me agarro ao seu corpo no chuveiro
alguém precisa pagar
nosso cheque especial
mesmo assim te levei
pra ver karine na rua augusta
e você me levou no playcenter
decidi que para sempre somente iremos
na frente em todas as montanhas russas
ainda quero escolher nossos hashis na liberdade
mas choveu e fomos comer comida árabe
nossas roupas tem cheiro
de sujeira enfiada na mochila
mas até que nos arrumamos direitinho
pro ano novo -
quando deu meia noite eu pensei
casa é alguém
...
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Nina.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
patatí patatá
..
se você ficar acordado tempo suficiente o corpo até para de doer - o sono passa e volta e passa de novo e você quer aproveitar o dia e as horas extras que ganhou mas desperdiça elas sentado com essa cara repuxada pensando se devia ir logo dormir ou se ainda dá pra viver só um pouquinho, só um pouquinho mais - que perder o dia é tão fácil e você não tá podendo desperdiçar - mas também de que adianta - se a cara repuxada some depois que você dorme mas outras coisas continuam
e talvez seja falta da substância que o cérebro produz, aquela, como era, passou no fantástico ou você leu na super que ficar sem dormir faz isso - mas ficar sem dormir faz isso aqui de te dar uma agradável vista panorâmica de tudo que tá errado na sua vida - e aí é claro que você fica com essa cara, essa cara, bota um óculos escuros que a gente vai tomar uma cerveja ali pra fugir de dormir e fugir do calor e tudo vai melhorar porque aí eu percebi
ai eu percebi que se o mundo todo morresse e só ficasse eu e você assim - agora eu quero uma coca, - gosto quando você conta moedinha assim, calculando tudo pra sempre sobrar pra minha coca, pra nunca me faltar - se ficasse só eu e você não ia ter cara repuxada, não - até ia, ia ter sim porque é bom quando a noite dura assim porque tem tanta coisa - só eu e você e agora passou o sono e eu esqueci o que tava errado, era no mundo, era no mundo e eu esqueci.
também, depois de todo esse tempo bebendo.
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Nina.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
amor e glória não é só boato
Nina diz:
mas pra mim você é perfeito
e quando por acaso você pisa fora da minha bolha de perfeição
eu aumento ela
pra caber você inteiro
a.m.t diz:
HAHAHA
gostei disso
Nina diz:
não vou dizer que vamos ficar juntos pra sempre
porque isso é imbecil pra caralho
mas admita
que rola um potencial massa
HAHA
...
mas pra mim você é perfeito
e quando por acaso você pisa fora da minha bolha de perfeição
eu aumento ela
pra caber você inteiro
a.m.t diz:
HAHAHA
gostei disso
Nina diz:
não vou dizer que vamos ficar juntos pra sempre
porque isso é imbecil pra caralho
mas admita
que rola um potencial massa
HAHA
...
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Nina.
domingo, 27 de junho de 2010
agosto
...
é isso que me angustia, essa parte tua que só eu sei que existe, teus olhos tão puros e tua boca tão suja.
eu digo que sou dona do teu corpo, dos teus dias, que carrego em segredo essa benção sem deus.
me permito vez ou outra algumas extravagâncias, teu nome escrito em minha pele, um pedido qualquer na madrugada - esqueça o resto e me ajude, me ouça - você ouve, você vem, sempre vem, desculpando minha dúvida e as lágrimas injustificadas.
é que também fico fraca, principalmente quando perco sangue, sem querer ouço o mundo me gritar malvadezas, me desacreditar do sagrado que carrego - que carregamos, amor.
é a saudade pregando peças, é a vida que gosta de ruir estruturas frágeis, mas eu sou a mulher prometida pro vento, abro as janelas, todas as janelas - ele está onde eu estou, não me incomodo de saber sozinha - eu tenho tanta certeza.
nas noites frias me aqueço de lembranças e futuros, o presente não me pertence porque não vivo nele. estou aí, em algum lugar entre teus desejos-de-mundo e teus olhos tão puros e tua boca tão suja. não me incomodo de saber sozinha.
as melhores coisas são secretas -
as melhores coisas são minhas.
...
é isso que me angustia, essa parte tua que só eu sei que existe, teus olhos tão puros e tua boca tão suja.
eu digo que sou dona do teu corpo, dos teus dias, que carrego em segredo essa benção sem deus.
me permito vez ou outra algumas extravagâncias, teu nome escrito em minha pele, um pedido qualquer na madrugada - esqueça o resto e me ajude, me ouça - você ouve, você vem, sempre vem, desculpando minha dúvida e as lágrimas injustificadas.
é que também fico fraca, principalmente quando perco sangue, sem querer ouço o mundo me gritar malvadezas, me desacreditar do sagrado que carrego - que carregamos, amor.
é a saudade pregando peças, é a vida que gosta de ruir estruturas frágeis, mas eu sou a mulher prometida pro vento, abro as janelas, todas as janelas - ele está onde eu estou, não me incomodo de saber sozinha - eu tenho tanta certeza.
nas noites frias me aqueço de lembranças e futuros, o presente não me pertence porque não vivo nele. estou aí, em algum lugar entre teus desejos-de-mundo e teus olhos tão puros e tua boca tão suja. não me incomodo de saber sozinha.
as melhores coisas são secretas -
as melhores coisas são minhas.
...
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Nina.
terça-feira, 22 de junho de 2010
carta pra são francisco
Lila, Lilinha, minha irmã, meu verdadeiro amor:
meu chefe também compra minha dedicação ao trabalho com doses generosas de café e bônus monetários no fim do mês. também distribuo sorrisos, dou dicas de filmes que sei que são ruins, ofereço comédias românticas pra casais felizes e pra gordas solitárias.
mas não ofereço muito mais do que isso, na maior parte do tempo minha mente vagueia. talvez aí com você - dessa vez estamos mais distantes do que um ônibus inter-estadual, mas tão próximas e iguais como siamesas - duas gatas aprendendo a cair de pé, - e falhando - duas gêmeas. imagino que mesmo que você use mais inglês agora - com os indianos, com os hóspedes do hotel, com os mexicanos que querem te levar pra ainda mais longe de mim - sorrisos falsos e patrões generosos no café são universais.
ainda uso nosso tarô online também, mas da última vez ele não me respondeu como eu queria - fiquei de mal e tapei os ouvidos. também deixo sempre pra dar um jeito no meu cabelo e na calça que uso no emprego no dia de folga, e também sempre me esqueço. me perco.
tenho vivido disso, de me perder, de procurar me achar. de não achar nada, e perder tudo de vez.
e começar tudo de novo.
acho graça - não deveríamos estar felizes ? não estamos fazendo o que queremos ?
se perde tanta coisa na estrada-pro-que-queremos.
não sei mais quem eu sou, essa foi minha maior perda até agora.
e seu saldo, como anda?
tenho pensado muito em ir te encontrar. são francisco, i love you, but you're bringing me down.
eu sei que nada é tão simples assim, mas tô cansada de saber das coisas.
quero voltar a não saber, a errar impunemente - quero nossos abismos de volta, quero sua mão na minha, quero ser entendida sem precisar usar palavras, quero você. minhas linhas da mão também são fracas, ninguém nunca conseguiu ler. deve ser porque nossos caminhos são tão maleáveis e preguiçosos quanto nossos corpos, nossas coxas brancas macias e suaves - tão úteis pra confortar homens cansados, e inúteis pra correr maratonas.
não quero sofrer, não quero lutar contra a correnteza,
quero seu abraço livre de perguntas - vamos juntar nossas ingenuidades e nosso blues e fazer alguma coisa com isso. um bolo. um livro. um carinho de leve com unhas grandes roçando na nuca - um "vai ficar tudo bem, porque eu te amo."
só isso pode nos salvar - da vida, de nós mesmas, deles que querem tanto uma mãe mas vão fugir assim que tiverem oportunidade, dos nossos passos em falso e dessa nossa corrida desesperada.
deixe eles ocupados construindo inutilidades de concreto, nós somos bobas demais pra participar -
temos nossa própria brincadeira secreta.
tenho pensado muito em ir te encontrar.
vamos ser erradas juntas -
dois erros imensos, dois erros enormes, gigantescos, imbecis e irremediáveis -
dois erros juntos fazem um acerto.
ou isso é um ditado ou eu acabei de inventar.
- mas como somos boas nisso, nisso de inventar !
........
meu chefe também compra minha dedicação ao trabalho com doses generosas de café e bônus monetários no fim do mês. também distribuo sorrisos, dou dicas de filmes que sei que são ruins, ofereço comédias românticas pra casais felizes e pra gordas solitárias.
mas não ofereço muito mais do que isso, na maior parte do tempo minha mente vagueia. talvez aí com você - dessa vez estamos mais distantes do que um ônibus inter-estadual, mas tão próximas e iguais como siamesas - duas gatas aprendendo a cair de pé, - e falhando - duas gêmeas. imagino que mesmo que você use mais inglês agora - com os indianos, com os hóspedes do hotel, com os mexicanos que querem te levar pra ainda mais longe de mim - sorrisos falsos e patrões generosos no café são universais.
ainda uso nosso tarô online também, mas da última vez ele não me respondeu como eu queria - fiquei de mal e tapei os ouvidos. também deixo sempre pra dar um jeito no meu cabelo e na calça que uso no emprego no dia de folga, e também sempre me esqueço. me perco.
tenho vivido disso, de me perder, de procurar me achar. de não achar nada, e perder tudo de vez.
e começar tudo de novo.
acho graça - não deveríamos estar felizes ? não estamos fazendo o que queremos ?
se perde tanta coisa na estrada-pro-que-queremos.
não sei mais quem eu sou, essa foi minha maior perda até agora.
e seu saldo, como anda?
tenho pensado muito em ir te encontrar. são francisco, i love you, but you're bringing me down.
eu sei que nada é tão simples assim, mas tô cansada de saber das coisas.
quero voltar a não saber, a errar impunemente - quero nossos abismos de volta, quero sua mão na minha, quero ser entendida sem precisar usar palavras, quero você. minhas linhas da mão também são fracas, ninguém nunca conseguiu ler. deve ser porque nossos caminhos são tão maleáveis e preguiçosos quanto nossos corpos, nossas coxas brancas macias e suaves - tão úteis pra confortar homens cansados, e inúteis pra correr maratonas.
não quero sofrer, não quero lutar contra a correnteza,
quero seu abraço livre de perguntas - vamos juntar nossas ingenuidades e nosso blues e fazer alguma coisa com isso. um bolo. um livro. um carinho de leve com unhas grandes roçando na nuca - um "vai ficar tudo bem, porque eu te amo."
só isso pode nos salvar - da vida, de nós mesmas, deles que querem tanto uma mãe mas vão fugir assim que tiverem oportunidade, dos nossos passos em falso e dessa nossa corrida desesperada.
deixe eles ocupados construindo inutilidades de concreto, nós somos bobas demais pra participar -
temos nossa própria brincadeira secreta.
tenho pensado muito em ir te encontrar.
vamos ser erradas juntas -
dois erros imensos, dois erros enormes, gigantescos, imbecis e irremediáveis -
dois erros juntos fazem um acerto.
ou isso é um ditado ou eu acabei de inventar.
- mas como somos boas nisso, nisso de inventar !
........
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Nina.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
mañana no campo de centeio.
...
o cheiro da comida dela me cavou um buraco fundo hoje, fiquei aqui pensando em cerveja na beira da praia e em tempos melhores -
juro por deus que sinto falta daquela época, quando eu andava perdida por aí mas podia voltar.
hoje eu tô aqui toda achada, sem ter onde descansar.
sempre tive essa mania de dizer as coisas quando ainda não devia, de nomear tudo com palavras que invento, não sei se prevejo ou se planejo. um pouco dos dois, com umas gotinhas do bom e velho desespero dos que não sabem esperar.
me pergunto, qual a idade limite pra se manter alheia?
por isso acho graça quando eles me aparecem com essas adultices artificiais, se você me partir no meio vai ver que meu sangue não é vermelho. é de um azul profundo, essa melancolia que nem eu consigo nomear, essa vontade de não-sei-quê que nunca passa. não sou criança, sou só um tom de azul meio fora de moda tentando viver.
Mañana ainda é minha palavra favorita, finjo que quero que chegue logo mas sei que Mañana não foi feita pra chegar em lugar nenhum. é isso que vocês não entendem. eu gosto da paisagem, de ter pra onde apontar os olhos, e olha só, eu até queria mesmo aquele cachorro, mas acho que tudo bem se nunca acontecer.
a parte importante é continuar querendo.
dá vontade de verter uma lágrima ou duas de vez em quando. terminei de ler o livro, mas holden caulfield chegou tarde demais.
imagino que ninguém leva literatura muito a sério, se salinger é um escritor consagrado.
quero dizer, como as pessoas podem incluir salinger no cânone ou qualquer porcaria dessas, e continuarem vivendo como vivem? é por isso, porque ninguém leva literatura muito a sério.
eu ando com meu clubinho dos desajustados debaixo do braço, me fazem mais companhia do que qualquer um de vocês, e broder, como eu levo literatura a sério.
...
o cheiro da comida dela me cavou um buraco fundo hoje, fiquei aqui pensando em cerveja na beira da praia e em tempos melhores -
juro por deus que sinto falta daquela época, quando eu andava perdida por aí mas podia voltar.
hoje eu tô aqui toda achada, sem ter onde descansar.
sempre tive essa mania de dizer as coisas quando ainda não devia, de nomear tudo com palavras que invento, não sei se prevejo ou se planejo. um pouco dos dois, com umas gotinhas do bom e velho desespero dos que não sabem esperar.
me pergunto, qual a idade limite pra se manter alheia?
por isso acho graça quando eles me aparecem com essas adultices artificiais, se você me partir no meio vai ver que meu sangue não é vermelho. é de um azul profundo, essa melancolia que nem eu consigo nomear, essa vontade de não-sei-quê que nunca passa. não sou criança, sou só um tom de azul meio fora de moda tentando viver.
Mañana ainda é minha palavra favorita, finjo que quero que chegue logo mas sei que Mañana não foi feita pra chegar em lugar nenhum. é isso que vocês não entendem. eu gosto da paisagem, de ter pra onde apontar os olhos, e olha só, eu até queria mesmo aquele cachorro, mas acho que tudo bem se nunca acontecer.
a parte importante é continuar querendo.
dá vontade de verter uma lágrima ou duas de vez em quando. terminei de ler o livro, mas holden caulfield chegou tarde demais.
imagino que ninguém leva literatura muito a sério, se salinger é um escritor consagrado.
quero dizer, como as pessoas podem incluir salinger no cânone ou qualquer porcaria dessas, e continuarem vivendo como vivem? é por isso, porque ninguém leva literatura muito a sério.
eu ando com meu clubinho dos desajustados debaixo do braço, me fazem mais companhia do que qualquer um de vocês, e broder, como eu levo literatura a sério.
...
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Nina.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
minha pica.
........
não quero mais usar o laço
que enfeita mas prende
não vou mais aprender
a sentar direito
pra saciar sua necessidade
de me manter segura
dos perigos imaginários
dos perigos reais
também quero provar
certos pontos
também quero provar
certos gostos
eu escondo minha calcinha
se você
esconder sua cueca
eu não carrego a boceta
no meio na testa
isso tem uma razão de ser
eu não vou pedir
permissão
emocional
pra viver
não quero mais usar o laço
que é confortável
mas se eu não me comporto
aperta pra doer
quero poder
escancarar
minhas pernas
sem você
precisar
me perguntar
quem eu pretendo
enfiar entre elas
eu não sou boneca
e se fosse seria daquelas
infláveis
me desculpe
pelo mau gosto
dessa auto-referência sexual
é que me disseram
que ser safado
é estético.
achei que tivesse sido
você
aprendi também
que quero ser amansada
que gosto das marcas
que seu corpo deixa no meu
mas isso não significa
que eu deva ficar na estante
à prova de machucado
enquanto você
pega seu carrinho
azulzinho
de menininho
e vai brincar lá fora.
me desculpe o transtorno
de sangrar e sujar tudo
isso não vai se repetir.
- aliás, vai.
TODO MÊS.
não quero mais usar o laço
que enfeita mas prende
não vou mais aprender
a sentar direito
pra saciar sua necessidade
de me manter segura
dos perigos imaginários
dos perigos reais
também quero provar
certos pontos
também quero provar
certos gostos
eu escondo minha calcinha
se você
esconder sua cueca
eu não carrego a boceta
no meio na testa
isso tem uma razão de ser
eu não vou pedir
permissão
emocional
pra viver
não quero mais usar o laço
que é confortável
mas se eu não me comporto
aperta pra doer
quero poder
escancarar
minhas pernas
sem você
precisar
me perguntar
quem eu pretendo
enfiar entre elas
eu não sou boneca
e se fosse seria daquelas
infláveis
me desculpe
pelo mau gosto
dessa auto-referência sexual
é que me disseram
que ser safado
é estético.
achei que tivesse sido
você
aprendi também
que quero ser amansada
que gosto das marcas
que seu corpo deixa no meu
mas isso não significa
que eu deva ficar na estante
à prova de machucado
enquanto você
pega seu carrinho
azulzinho
de menininho
e vai brincar lá fora.
me desculpe o transtorno
de sangrar e sujar tudo
isso não vai se repetir.
- aliás, vai.
TODO MÊS.
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Nina.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
caminho
...
eu loirinha no ônibus
no caminho
entre um emprego e outro
comendo lasanha num pote
resolvi usar meus óculos
e deixar de ser míope
resolvi outras coisas também
no caminho
entre um emprego e outro
comendo lasanha num pote
digo que você é meu noivo na locadora
porque os clientes sorriem
e acham que combina
noivo com loirinha
e óculos de acrílico preto
fico pensando
no caminho
entre um emprego e outro
- guardando meu pote de lasanha
na minha bolsa nova de adulta -
por quantos meses
serei loirinha
e almoçarei no ônibus
me divertindo em ser
a menina da locadora.
sorrio pensando
no que você diria -
a preta trabalhadora do meu lado
sorri de volta pra mim
com a simpatia
de quem encontrou um igual -
fico tentada a dizer
que talvez eu não mereça.
....
eu loirinha no ônibus
no caminho
entre um emprego e outro
comendo lasanha num pote
resolvi usar meus óculos
e deixar de ser míope
resolvi outras coisas também
no caminho
entre um emprego e outro
comendo lasanha num pote
digo que você é meu noivo na locadora
porque os clientes sorriem
e acham que combina
noivo com loirinha
e óculos de acrílico preto
fico pensando
no caminho
entre um emprego e outro
- guardando meu pote de lasanha
na minha bolsa nova de adulta -
por quantos meses
serei loirinha
e almoçarei no ônibus
me divertindo em ser
a menina da locadora.
sorrio pensando
no que você diria -
a preta trabalhadora do meu lado
sorri de volta pra mim
com a simpatia
de quem encontrou um igual -
fico tentada a dizer
que talvez eu não mereça.
....
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Nina.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
post it
...
ela sonhou com um mundo onde os homens eram menos homens e as mulheres menos mulheres, onde o sexo era acaso, olha, esse nasceu com um pau, e não justificativa.
querer era poder e sentimento era ação -
um plano astral sem muitos planos.
ela sonhou porque achou que ele estava voltando da cozinha, mas acabou dormindo.
...
ela sonhou com um mundo onde os homens eram menos homens e as mulheres menos mulheres, onde o sexo era acaso, olha, esse nasceu com um pau, e não justificativa.
querer era poder e sentimento era ação -
um plano astral sem muitos planos.
ela sonhou porque achou que ele estava voltando da cozinha, mas acabou dormindo.
...
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Nina.
domingo, 9 de maio de 2010
mamão-com-açúcar
...
meus mamilos estão doloridos
na proximidade
da menstruação
é o frio
é a falta dos teus dedos
fazendo pressão
você diz
que eu quero
moleza na vida
mas então me explique
porque me fazem tanta falta
meus mamilos duros
na proximidade
do teu pau duro
na minha mão
...
meus mamilos estão doloridos
na proximidade
da menstruação
é o frio
é a falta dos teus dedos
fazendo pressão
você diz
que eu quero
moleza na vida
mas então me explique
porque me fazem tanta falta
meus mamilos duros
na proximidade
do teu pau duro
na minha mão
...
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Nina.
você diz: vai demorar.
...
ainda caio
por você
em seus truquezinhos
espertos
baratos
(mas eu pago
caro)
me ajude
só hoje
que estou oscilando
(caindo
ou flutuando ?)
me cuide
só hoje
que estou oscilando
(caindo
ou me jogando ?)
o fundo do poço:
ah esse lugar
superestimado
não quero perder
o fôlego
pra aprender
a amar
o ar
não quero cair
não quero te ensinar
a me levantar
só hoje
não sei
se estou indo
se estou
ficando.
...
ainda caio
por você
em seus truquezinhos
espertos
baratos
(mas eu pago
caro)
me ajude
só hoje
que estou oscilando
(caindo
ou flutuando ?)
me cuide
só hoje
que estou oscilando
(caindo
ou me jogando ?)
o fundo do poço:
ah esse lugar
superestimado
não quero perder
o fôlego
pra aprender
a amar
o ar
não quero cair
não quero te ensinar
a me levantar
só hoje
não sei
se estou indo
se estou
ficando.
...
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Nina.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
tarde
...
não é cedo demais
é tarde
é tarde que me pego pensando
em quanto tempo perdi
por quanto tempo desconheci
teus caminhos confusos e leves
por quanto tempo vivi
sem saber de teus olhos
- não poços escuros e infinitos
não abismos-pra-se-perder
mas poças de chuvas suaves
lagos rasos e férteis
onde molho os pés e conheço meu rosto
enquanto me refresco
do sol forte
tantos lugares teus
pra achar e não me perder
estradas de todas as formas
ladeiras sim que é preciso coragem
mas o trajeto é curto
e o destino é casa
- em qualquer lugar onde haja
teu cheiro
teu ombro
não é cedo demais
é tarde
é muito tarde
é tarde que eu quase comecei
a carregar bagagens
que por pouco não trouxe comigo
alguns medos
tarde que eu olho em volta
e tenho vergonha de imaginar
como a vida seria
como eu me reconheceria
sem tuas mãos ao alcance das minhas
é tarde porque todos os anos
de uma imensa e longa vida
não bastariam
pra se viver tal destino
de escolher e ser escolhido
e tirar prazer das pequenas palavras
dos grandes passos
dos dias de desejo
o desejo que jamais será consumido
a não ser que se mudem
certas leis da física
e teu corpo possa ocupar
para sempre
o mesmo espaço
que o meu
eu amo você.
...
não é cedo demais
é tarde
é tarde que me pego pensando
em quanto tempo perdi
por quanto tempo desconheci
teus caminhos confusos e leves
por quanto tempo vivi
sem saber de teus olhos
- não poços escuros e infinitos
não abismos-pra-se-perder
mas poças de chuvas suaves
lagos rasos e férteis
onde molho os pés e conheço meu rosto
enquanto me refresco
do sol forte
tantos lugares teus
pra achar e não me perder
estradas de todas as formas
ladeiras sim que é preciso coragem
mas o trajeto é curto
e o destino é casa
- em qualquer lugar onde haja
teu cheiro
teu ombro
não é cedo demais
é tarde
é muito tarde
é tarde que eu quase comecei
a carregar bagagens
que por pouco não trouxe comigo
alguns medos
tarde que eu olho em volta
e tenho vergonha de imaginar
como a vida seria
como eu me reconheceria
sem tuas mãos ao alcance das minhas
é tarde porque todos os anos
de uma imensa e longa vida
não bastariam
pra se viver tal destino
de escolher e ser escolhido
e tirar prazer das pequenas palavras
dos grandes passos
dos dias de desejo
o desejo que jamais será consumido
a não ser que se mudem
certas leis da física
e teu corpo possa ocupar
para sempre
o mesmo espaço
que o meu
eu amo você.
...
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Nina.
terça-feira, 27 de abril de 2010
viagem.
...
você mastigou debochado
a pinta que arrancou das minhas costas
com seus dentes
dentro do museu
enquanto eu tentava fingir
que alguma outra arte ali
atraía meus olhos
pra longe de você
fomos ouvir piano no metrô
mais tarde roubamos chicletes japoneses
e trocamos palavras bonitas
desabrigados como sempre
no frio
procuramos um motel
achamos um bar
de karaokê
você não cantou pra mim uma música
bêbado
acho que seria exagero.
outra hora eu mastiguei seu prepúcio
achando engraçado
inflar seu pau
com o ar do meu pulmão
achando necessário
inflar seu peito
com meu coração
enquanto víamos filmes ruins
e pensávamos numa maneira civilizada
de nos livrar discretamente
das manchas nos lençóis
que ainda não são
os nossos.
acho que devíamos
só de vez em quando
praticar atividades normais
só por esporte
só pras poesias fazerem
sentido.
..
você mastigou debochado
a pinta que arrancou das minhas costas
com seus dentes
dentro do museu
enquanto eu tentava fingir
que alguma outra arte ali
atraía meus olhos
pra longe de você
fomos ouvir piano no metrô
mais tarde roubamos chicletes japoneses
e trocamos palavras bonitas
desabrigados como sempre
no frio
procuramos um motel
achamos um bar
de karaokê
você não cantou pra mim uma música
bêbado
acho que seria exagero.
outra hora eu mastiguei seu prepúcio
achando engraçado
inflar seu pau
com o ar do meu pulmão
achando necessário
inflar seu peito
com meu coração
enquanto víamos filmes ruins
e pensávamos numa maneira civilizada
de nos livrar discretamente
das manchas nos lençóis
que ainda não são
os nossos.
acho que devíamos
só de vez em quando
praticar atividades normais
só por esporte
só pras poesias fazerem
sentido.
..
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Nina.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
diálogos
...
- tinha um muro, um muro, me separando das coisas. as coisas que tavam atrás dele, sabe?
- hum.
- aí eu fiquei ali parada, olhando, e senti que
- você vai querer café?
- quê?
- café. quer café?
- não, não quero café porra. quero contar a porra do sonho.
- tá. continue então.
- e eu sabia que eu precisava chegar do outro lado, mas o muro era tão assustador. sabe aquele muro que parece que tem vida própria no filme do pink floyd? eu quero sim.
- hum?
- café. eu vou querer sim.
- toma aqui o meu, vou pegar outra xícara.
- espera. porque você acha que isso acontece?
- foi só um sonho, amor.
- não! não o sonho, isso. isso que sempre acontece, eu tentando me explicar, você preocupado com o café ou com qualquer merda prática. eu tô sempre sonhando e você tá sempre fazendo.
- cada um com seu papel no mundo.
- ah, qual é meu papel então? ser inútil?
- me encher o saco todo dia de manhã pra me fazer um homem feliz.
- ha-ha.
- você pode abrir uma casa de interpretação de sonhos.
- é, eu me vestiria de cigana.
- aham. pode tirar o tarô também.
- sonhei outra coisa. tinha um cara me mostrando umas fotos muito macabras, e uns jornais antigos com uns textos, e eu não conseguia ler mas eu sabia que eram horríveis. e eu tentava ser simpática e compreensiva com ele, porque eu tava com medo.
- medo do que?
- eu sabia que ele era o norman bates, e eu ia ser a primeira vítima.
- pfff.
- é sério! foi assustador. ele queria fazer uma cirurgia de mudança de sexo, e ficava perguntando minha opinião enquanto me mostrava as fotos estranhas.
- um sonho lindo.
- também sonhei que mamãe me dava uma calcinha rosa, com rendinhas pretas, e eu queria usar com você e foder. mas você queria desembaraçar meu cabelo não sei porque. eu fiquei ali sentada na cama, esperando você terminar com o cabelo, mas você tava penteando ele todo errado.
- aham. peraí que vou pegar mais café.
- ah, mas eu esqueci de terminar o do muro.
- muro do pink floyd, norman bates, calcinha e sua mãe. é o suficiente pra uma manhã. agora pegue isso e escreva uma história.
- é, um filme-de-arte pretensioso e nonsense. como vou encaixar uma coisa na outra?
- pra fazer um filme?
- não, idiota. pra entender!
- espere até hoje de noite e sonhe de novo.
- hum, provavelmente vou sonhar com um quebra-cabeça gigantesco e sem solução. eu sei qual é a figura, mas as peças tão faltando, tá tudo uma bagunça, e as pessoas passam por mim e chutam as peças pra longe.
- aí você descobre que tá no reino das metáforas imbecis.
- é isso que falta!
- o quê, sua louca?
- continuidade. sabe? eu preciso aprender a encaixar as coisas.
- seu café tá esfriando, meu amor.
- encaixar. é que eu não consigo, sabe? parece que eu nunca termino o que começo, parece que tudo o que eu faço sempre acaba ficando incompl
- tinha um muro, um muro, me separando das coisas. as coisas que tavam atrás dele, sabe?
- hum.
- aí eu fiquei ali parada, olhando, e senti que
- você vai querer café?
- quê?
- café. quer café?
- não, não quero café porra. quero contar a porra do sonho.
- tá. continue então.
- e eu sabia que eu precisava chegar do outro lado, mas o muro era tão assustador. sabe aquele muro que parece que tem vida própria no filme do pink floyd? eu quero sim.
- hum?
- café. eu vou querer sim.
- toma aqui o meu, vou pegar outra xícara.
- espera. porque você acha que isso acontece?
- foi só um sonho, amor.
- não! não o sonho, isso. isso que sempre acontece, eu tentando me explicar, você preocupado com o café ou com qualquer merda prática. eu tô sempre sonhando e você tá sempre fazendo.
- cada um com seu papel no mundo.
- ah, qual é meu papel então? ser inútil?
- me encher o saco todo dia de manhã pra me fazer um homem feliz.
- ha-ha.
- você pode abrir uma casa de interpretação de sonhos.
- é, eu me vestiria de cigana.
- aham. pode tirar o tarô também.
- sonhei outra coisa. tinha um cara me mostrando umas fotos muito macabras, e uns jornais antigos com uns textos, e eu não conseguia ler mas eu sabia que eram horríveis. e eu tentava ser simpática e compreensiva com ele, porque eu tava com medo.
- medo do que?
- eu sabia que ele era o norman bates, e eu ia ser a primeira vítima.
- pfff.
- é sério! foi assustador. ele queria fazer uma cirurgia de mudança de sexo, e ficava perguntando minha opinião enquanto me mostrava as fotos estranhas.
- um sonho lindo.
- também sonhei que mamãe me dava uma calcinha rosa, com rendinhas pretas, e eu queria usar com você e foder. mas você queria desembaraçar meu cabelo não sei porque. eu fiquei ali sentada na cama, esperando você terminar com o cabelo, mas você tava penteando ele todo errado.
- aham. peraí que vou pegar mais café.
- ah, mas eu esqueci de terminar o do muro.
- muro do pink floyd, norman bates, calcinha e sua mãe. é o suficiente pra uma manhã. agora pegue isso e escreva uma história.
- é, um filme-de-arte pretensioso e nonsense. como vou encaixar uma coisa na outra?
- pra fazer um filme?
- não, idiota. pra entender!
- espere até hoje de noite e sonhe de novo.
- hum, provavelmente vou sonhar com um quebra-cabeça gigantesco e sem solução. eu sei qual é a figura, mas as peças tão faltando, tá tudo uma bagunça, e as pessoas passam por mim e chutam as peças pra longe.
- aí você descobre que tá no reino das metáforas imbecis.
- é isso que falta!
- o quê, sua louca?
- continuidade. sabe? eu preciso aprender a encaixar as coisas.
- seu café tá esfriando, meu amor.
- encaixar. é que eu não consigo, sabe? parece que eu nunca termino o que começo, parece que tudo o que eu faço sempre acaba ficando incompl
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Nina.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
dancinha da monogamia
...
mozinho, cuidado com a vida
que ela gosta de aprontar
não deixe ela te levar
de mim -
mozinho, cuidado com a noite
que ela gosta de durar
não deixe ela te tragar
de mim-
mozinho, cuidado comigo
que eu gosto de enlaçar
não me deixe te sufocar
a vida e a noite não podem esperar -
(mas me leve com você
se elas não forem
se importar)
...
mozinho, cuidado com a vida
que ela gosta de aprontar
não deixe ela te levar
de mim -
mozinho, cuidado com a noite
que ela gosta de durar
não deixe ela te tragar
de mim-
mozinho, cuidado comigo
que eu gosto de enlaçar
não me deixe te sufocar
a vida e a noite não podem esperar -
(mas me leve com você
se elas não forem
se importar)
...
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Nina.
terça-feira, 16 de março de 2010
uma espera
...
o ônibus que demora, precisa fazer as unhas dos pés, precisa marcar uma tarde com marianna, precisa achar o caminho por entre ruas que o ônibus que demora não pode alcançar -
faz listas de á fazer compulsivamente, cria códigos com palavras e símbolos e depois esquece o que eles queriam dizer. depois sempre esquece o que as coisas queriam dizer.
desconfia da dor de cabeça, da arritmia no peito, ou é o cigarro ou é a angústia, essa agonia que é viver esperando e esperar pra viver.
guardou o coração e o sorriso com um cara que anda distante, a geografia não ajuda os apaixonados, ele sempre milhas e milhas adiante,
ela aqui precisando fazer as unhas do pé, esperar o ônibus e achar um caminho.
- quero um caminho que me leve até o além
mas aceito um atalho que me leve até você
acha que se pegar o ônibus certo - até ele -
talvez
- me leve só até ali.
só até eu saber.
enquanto isso adia as pequenas tarefas domésticas, muda a cor do cabelo, lê uns livros que não andam dizendo muita coisa, desconfia das pessoas com muitos amigos, compra cerveja no mercado - na promoção - com cara de desespero.
não se pode escrever uma história com poucas palavras
não se pode arranjar muitas palavras com pouca vida
não se pode viver
com tanta espera
quer jogar tudo pro alto
mas carrega um peso e uma falta
um peso e uma falta
que na verdade são leves
leves
- me leve só até ele
só até eu saber
só até
a próxima espera.
a vida corre -
a vida e os ônibus não deixam de correr.
..
o ônibus que demora, precisa fazer as unhas dos pés, precisa marcar uma tarde com marianna, precisa achar o caminho por entre ruas que o ônibus que demora não pode alcançar -
faz listas de á fazer compulsivamente, cria códigos com palavras e símbolos e depois esquece o que eles queriam dizer. depois sempre esquece o que as coisas queriam dizer.
desconfia da dor de cabeça, da arritmia no peito, ou é o cigarro ou é a angústia, essa agonia que é viver esperando e esperar pra viver.
guardou o coração e o sorriso com um cara que anda distante, a geografia não ajuda os apaixonados, ele sempre milhas e milhas adiante,
ela aqui precisando fazer as unhas do pé, esperar o ônibus e achar um caminho.
- quero um caminho que me leve até o além
mas aceito um atalho que me leve até você
acha que se pegar o ônibus certo - até ele -
talvez
- me leve só até ali.
só até eu saber.
enquanto isso adia as pequenas tarefas domésticas, muda a cor do cabelo, lê uns livros que não andam dizendo muita coisa, desconfia das pessoas com muitos amigos, compra cerveja no mercado - na promoção - com cara de desespero.
não se pode escrever uma história com poucas palavras
não se pode arranjar muitas palavras com pouca vida
não se pode viver
com tanta espera
quer jogar tudo pro alto
mas carrega um peso e uma falta
um peso e uma falta
que na verdade são leves
leves
- me leve só até ele
só até eu saber
só até
a próxima espera.
a vida corre -
a vida e os ônibus não deixam de correr.
..
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Nina.
mamãe.
...
ela me manda regar as plantas, lavar os pratos,
ter juízo, fazer a cama,
limpar a mente;
ela que é perto-longe do que eu sou
e me criou com um amor cheio de princípios
- que mamãe não é de artifícios
é feita de uma fibra que deus não usa mais
- que eu penso que tenho em mim também nos dias difíceis
- que eu penso que escapou de mim nos dias que eu choro.
ela me quer grande e limpa
eu quero ir dormir sem tomar banho
ela me quer forte e bonita
eu quero fugir do ninho -
não quero fugir de você, mamãe;
mas é por isso mesmo que eu tenho que ir
se eu não for agora, mamãe
não vou querer ir nunca mais.
eu rego suas plantas
lavo os pratos
crio juízo
faço por você.
quando eu crescer, mamãe
quero ser
que nem você.
...
ela me manda regar as plantas, lavar os pratos,
ter juízo, fazer a cama,
limpar a mente;
ela que é perto-longe do que eu sou
e me criou com um amor cheio de princípios
- que mamãe não é de artifícios
é feita de uma fibra que deus não usa mais
- que eu penso que tenho em mim também nos dias difíceis
- que eu penso que escapou de mim nos dias que eu choro.
ela me quer grande e limpa
eu quero ir dormir sem tomar banho
ela me quer forte e bonita
eu quero fugir do ninho -
não quero fugir de você, mamãe;
mas é por isso mesmo que eu tenho que ir
se eu não for agora, mamãe
não vou querer ir nunca mais.
eu rego suas plantas
lavo os pratos
crio juízo
faço por você.
quando eu crescer, mamãe
quero ser
que nem você.
...
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Nina.
redundante
..
teu nome escrito em minha pele
é uma redundância engraçada
sou eu ajudando
o trabalho dos olhos
escrevo teu nome em todo o lugar
no papel
nas calçadas
com meus passos
nos espelhos
nas janelas
a cidade me responde
me mandando dias belos
caminhos fáceis
chuvas rasas
nuvens fundas
marés
deus deu teu nome
pra todas as coisas
é um segredo
que tento dividir
com o mundo
teu nome escrito em minha pele
é uma redundância bonita
sou eu ajudando
o trabalho dos olhos
sou eu revelando
o segredo de deus
meu nome é o teu também.
..
teu nome escrito em minha pele
é uma redundância engraçada
sou eu ajudando
o trabalho dos olhos
escrevo teu nome em todo o lugar
no papel
nas calçadas
com meus passos
nos espelhos
nas janelas
a cidade me responde
me mandando dias belos
caminhos fáceis
chuvas rasas
nuvens fundas
marés
deus deu teu nome
pra todas as coisas
é um segredo
que tento dividir
com o mundo
teu nome escrito em minha pele
é uma redundância bonita
sou eu ajudando
o trabalho dos olhos
sou eu revelando
o segredo de deus
meu nome é o teu também.
..
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Nina.
domingo, 7 de março de 2010
aventura
.
lembro que estava chovendo
eu e você - como deve ser
na rua desabrigados
carregando minha mala
na cidade quente
que de vez em quando é fria
indo para o bar
fugindo da chuva
da rua
da vida
porque o bar é o único lugar
que sempre mantém as portas
abertas
lembro de ter te perguntado
pra onde ir
o que fazer
lembro da sua calma
sua falta de pressa
em me responder
você se ocupando
devagar
de me alimentar
me fazer rir
acho que fomos ao cinema
você me disse
preu não me preocupar
eu não me preocupei
a chuva passou
sempre passa
demos um jeito em tudo
eu e você - como deve ser
ficou a certeza
que guardo até hoje
não existe desabrigo
pra quem sabe
dar as mãos
e fazer casa.
...
lembro que estava chovendo
eu e você - como deve ser
na rua desabrigados
carregando minha mala
na cidade quente
que de vez em quando é fria
indo para o bar
fugindo da chuva
da rua
da vida
porque o bar é o único lugar
que sempre mantém as portas
abertas
lembro de ter te perguntado
pra onde ir
o que fazer
lembro da sua calma
sua falta de pressa
em me responder
você se ocupando
devagar
de me alimentar
me fazer rir
acho que fomos ao cinema
você me disse
preu não me preocupar
eu não me preocupei
a chuva passou
sempre passa
demos um jeito em tudo
eu e você - como deve ser
ficou a certeza
que guardo até hoje
não existe desabrigo
pra quem sabe
dar as mãos
e fazer casa.
...
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Nina.
quarta-feira, 3 de março de 2010
rio de janeiro
...
as montanhas do rio
sobem e descem
as montanhas do rio
crescem em mim
ando desconfiada
de um certo plano de deus;
ando abençoada.
ligue não
que meu pé atrás
não é por nada -
sou eu
aprendendo a sambar.
...
as montanhas do rio
sobem e descem
as montanhas do rio
crescem em mim
ando desconfiada
de um certo plano de deus;
ando abençoada.
ligue não
que meu pé atrás
não é por nada -
sou eu
aprendendo a sambar.
...
Postado por
Nina.
prefácio
.
não me importo que tua ausência
- buraco pungente que me traga
me transforme em tua mera retratista.
minhas palavras serão tuas
não serão meus melhores poemas
mas serão meus melhores dias.
...
você sai do banho só para importunar minhas idéias -
me sufocar com sua carne perfeita
me distrair com suas linhas
seus caminhos
você sai do banho só para brincar de ser meu mapa
e que merda de trabalho você faz como mapa
porque eu só me perco.
quando você encosta em mim sua boca gelada
seu cabelo sempre molha meu livro
e tudo fica assim meio molhado -
você tem essa ridícula mania
de ignorar todas as minhas perguntas
mas aí você sai do banho
e seus olhos tem todas as respostas.
...
queria escrever algo de sagrado
algo de significativo
mas é que acabei de descobrir
que seus olhos são sagrados
cheios de significados.
- e essa é a única desculpa que eu tenho.
.
não me importo que tua ausência
- buraco pungente que me traga
me transforme em tua mera retratista.
minhas palavras serão tuas
não serão meus melhores poemas
mas serão meus melhores dias.
...
você sai do banho só para importunar minhas idéias -
me sufocar com sua carne perfeita
me distrair com suas linhas
seus caminhos
você sai do banho só para brincar de ser meu mapa
e que merda de trabalho você faz como mapa
porque eu só me perco.
quando você encosta em mim sua boca gelada
seu cabelo sempre molha meu livro
e tudo fica assim meio molhado -
você tem essa ridícula mania
de ignorar todas as minhas perguntas
mas aí você sai do banho
e seus olhos tem todas as respostas.
...
queria escrever algo de sagrado
algo de significativo
mas é que acabei de descobrir
que seus olhos são sagrados
cheios de significados.
- e essa é a única desculpa que eu tenho.
.
Postado por
Nina.
fortune teller
...
- porque não falamos de glória nem milagres,
porque o passado é esquecido e enterrado,
porque só temos tempo de olhar o futuro e fingir que enxergamos algo.
a bola de cristal é nebulosa, porém -
e na verdade meio rasa.
eu vi um rosto, um homem, podia ser uma mulher;
um emprego muito empolgante, uma proposta irrecusável,
uma festa imperdível, uma viagem insuperável - podia ser qualquer coisa;
mas não podia deixar de ser.
porque nos movimentamos
e de novo vamos sentar na mesa, pedir uma cerveja,
porque tem tanta coisa a ser discutida, comentada, vista, vivida, viajada, comparada -
mas você não viu nada.
nenhum de nós viu,
porque só temos tempo de olhar o futuro e fingir que enxergamos algo,
porque somos jovens e reluzentes e vamos continuar fingindo.
entalando na garganta aquela palavra ou outra qualquer,
porque não falamos de glória nem milagres,
porque o tempo passa
e nada fica -
mas ah! como temos histórias pra contar.
...
- porque não falamos de glória nem milagres,
porque o passado é esquecido e enterrado,
porque só temos tempo de olhar o futuro e fingir que enxergamos algo.
a bola de cristal é nebulosa, porém -
e na verdade meio rasa.
eu vi um rosto, um homem, podia ser uma mulher;
um emprego muito empolgante, uma proposta irrecusável,
uma festa imperdível, uma viagem insuperável - podia ser qualquer coisa;
mas não podia deixar de ser.
porque nos movimentamos
e de novo vamos sentar na mesa, pedir uma cerveja,
porque tem tanta coisa a ser discutida, comentada, vista, vivida, viajada, comparada -
mas você não viu nada.
nenhum de nós viu,
porque só temos tempo de olhar o futuro e fingir que enxergamos algo,
porque somos jovens e reluzentes e vamos continuar fingindo.
entalando na garganta aquela palavra ou outra qualquer,
porque não falamos de glória nem milagres,
porque o tempo passa
e nada fica -
mas ah! como temos histórias pra contar.
...
Postado por
Nina.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
...
meu amor:
nada pode impedir a chuva que virá -
já ouço o vento, aqui da minha janela.
espero acordada você voltar,
pra poder dormir em paz
mas sei que hoje você não vem.
é só o vento -
vocês são tão parecidos que me contento.
não se preocupe comigo
que tenho muitas páginas em branco pra preencher,
que tenho muitas páginas alheias pra ler.
tenho também planos pro carnaval -
planos pra abril
tenho sonhos de asas
e sonhos de casa.
e que casas podem voar é uma teoria minha
que nós vamos comprovar.
..
meu amor:
nada pode impedir a chuva que virá -
já ouço o vento, aqui da minha janela.
espero acordada você voltar,
pra poder dormir em paz
mas sei que hoje você não vem.
é só o vento -
vocês são tão parecidos que me contento.
não se preocupe comigo
que tenho muitas páginas em branco pra preencher,
que tenho muitas páginas alheias pra ler.
tenho também planos pro carnaval -
planos pra abril
tenho sonhos de asas
e sonhos de casa.
e que casas podem voar é uma teoria minha
que nós vamos comprovar.
..
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Nina.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
haute cuisine
.
teu corpo sempre pronto
pra consumir o meu
não vamos nos lavar
corpo sujo faz perdurar
o gosto bom
entre minhas pernas gosto de guardar
teu esperma antigo
de eras atrás
teu esperma envelhecido
meu corpo guarda
é abrigo
do gosto bom
amanhã teu corpo vai
devorar o meu de novo
e entre minhas pernas vai nascer
um lago
profundo
azedo
viscoso
um mar lodoso
e o que escorrer
pegarei com as mãos para beber
não se deve desperdiçar
as coisas sagradas
que a vida nos dá
não se deve desperdiçar
o gosto bom
..
teu corpo sempre pronto
pra consumir o meu
não vamos nos lavar
corpo sujo faz perdurar
o gosto bom
entre minhas pernas gosto de guardar
teu esperma antigo
de eras atrás
teu esperma envelhecido
meu corpo guarda
é abrigo
do gosto bom
amanhã teu corpo vai
devorar o meu de novo
e entre minhas pernas vai nascer
um lago
profundo
azedo
viscoso
um mar lodoso
e o que escorrer
pegarei com as mãos para beber
não se deve desperdiçar
as coisas sagradas
que a vida nos dá
não se deve desperdiçar
o gosto bom
..
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Nina.
it's summertime
...
- é verão, dá preguiça, olha só, já é verão.
é o calor, a gente meio assim
meio pra lá
meio pra cá
meio mole meio de pé
porque afinal
é verão.
tem que se aproveitar o verão,
você me diz no inverno.
mas aí ele chega,
- é verão, dá preguiça, olha só, já é verão.
é meu cabelo derretendo na água
o friozinho na nuca
meus cachos desfazendo
no balanço do mar
meio pra lá
meio pra cá
e eu abro o olho e te vejo
sobre mim
- ops, não era o mar;
era teu suor escorrendo
meus cachos desfazendo
era você me fodendo
é que eu me perdi por um instante
é que já é verão
- e dá uma preguiça...
...
- é verão, dá preguiça, olha só, já é verão.
é o calor, a gente meio assim
meio pra lá
meio pra cá
meio mole meio de pé
porque afinal
é verão.
tem que se aproveitar o verão,
você me diz no inverno.
mas aí ele chega,
- é verão, dá preguiça, olha só, já é verão.
é meu cabelo derretendo na água
o friozinho na nuca
meus cachos desfazendo
no balanço do mar
meio pra lá
meio pra cá
e eu abro o olho e te vejo
sobre mim
- ops, não era o mar;
era teu suor escorrendo
meus cachos desfazendo
era você me fodendo
é que eu me perdi por um instante
é que já é verão
- e dá uma preguiça...
...
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
das flores que brotam no asfalto
...
você não é bonita,
mesmo assim me perco:
é a retidão do teu corpo sem curvas
que não espera nem precisa ser tocado
é uma certa rigidez dos lábios -
teu olhar decepcionado.
venha cá,
venha me desprezar também.
eu sei que debaixo dessa tua vaga tentativa
de ser força e músculo
de estar protegida contra as marés
você é seio macio
carne mole
conheço teu segredo suave
porque também já quis
renegar o meu.
eu te digo:
princesa, não tombes tua coroa.
traga para mim tua fraqueza
não tenha medo da languidez
não fuja da profundidade
das nossas
concavidades
sejamos juntas
líquidas e fecundas
ser menina nem é tão ruim assim.
você não é bonita,
mesmo assim me perco:
é a retidão do teu corpo sem curvas
que não espera nem precisa ser tocado
é uma certa rigidez dos lábios -
teu olhar decepcionado.
venha cá,
venha me desprezar também.
eu sei que debaixo dessa tua vaga tentativa
de ser força e músculo
de estar protegida contra as marés
você é seio macio
carne mole
conheço teu segredo suave
porque também já quis
renegar o meu.
eu te digo:
princesa, não tombes tua coroa.
traga para mim tua fraqueza
não tenha medo da languidez
não fuja da profundidade
das nossas
concavidades
sejamos juntas
líquidas e fecundas
ser menina nem é tão ruim assim.
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Nina.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
quando ir significa muito, e ficar também.
...
aqui faz calor, e tenho me perguntado se estaria mais feliz no frio.
mania de ocupar a cabeça com coisas pequenas pra fugir das grandes,
já me acusaram de muitos crimes mas acho que esse é meu pior hábito.
eu sei que também tenho tido sorte, e que viver não era pra ser assim tão fácil -
mas já que você me perguntou porque eu carrego esse blues no olhar,
seria falta de educação deixar de responder:
insatisfação vem no pacotinho de existir.
talvez tudo melhore mês que vem, solstício que vem,
amor que vem.
talvez piore.
a única certeza é que estaremos em dúvida.
você também não ama paradoxos?
aprendi a deixar pra lá os pesos que machucam as costas,
se você se oferecer pra carregar é claro que eu não vou dizer que não.
te ver partindo naquele trem foi ruim,
mas estou aqui;
esperar você voltar é só mais uma espera que acrescentei ao pacotinho de existir.
comer, dormir, resmungar, esperar.
o que doeu de verdade foi a ironia.
o dia em que você resolveu ir era um domingo - não que você vá lembrar.
era domingo, e eu só reparei quando eu voltei pra casa,
fechei as janelas e apaguei as luzes.
você partiu num trem de domingo, logo você.
você partiu num trem de domingo e eu não chorei.
- aí veio o inverno.
semana passada finalmente conheci nosso vizinho.
foram alguns encontros constrangedores no elevador,
eu com sacolas cheias de garrafas e berinjelas,
naqueles dias em que eu encuquei de só comer berinjelas porque você também gostava.
eu fatiava todas com um carinho desesperado enquanto imaginava você perdendo os dedos do violão em algum acidente -
mas já pedi desculpas pelo meu vodu vegetal.
a bebida era pra misturar com limão e açúcar, que eu estava triste,
mas não tanto pra esquecer do açúcar.
num desses encontros de elevador, ele me perguntou hesitante se eu estava bem.
e eu devo ter respondido com um grunhido algo simpático, porque quando percebi ele estava aqui na cozinha me ajudando com as compras.
eu tentei sorrir e me envergonhei das berinjelas e da vodca, acho que foi nesse dia que resolvi mudar de cardápio. tem coisas que você só percebe quando as pessoas param de te olhar nos olhos.
hoje aceitei o convite pro café.
agora já posso tomar café sem aquela histeria toda,
em parte porque todas as suas canecas já foram quebradas.
em parte porque a cafeína é um hábito sério que não deve ser negligenciado só porque alguém resolveu pegar um trem e foder tua vida.
as janelas da casa dele são todas abertas, e a casa cheia de entulho.
pelo menos foi o que pensei no começo, depois percebi que cada objeto tinha sua função.
não me ocupei muito de formalidades, a velhice dele me conforta, a pele negra dele me conforta -
como se fosse algum parente perdido de papai que eu esqueci de conhecer.
mas o que eu queria mesmo te dizer é que eu acho que nosso vizinho pintor não bate muito bem da cabeça;
te contei que ele é pintor também?
porque quando ele me mostrou as telas dele,
eu juro que todas estavam em branco.
não ser a única maluca por aqui me conforta também.
...
aqui faz calor, e tenho me perguntado se estaria mais feliz no frio.
mania de ocupar a cabeça com coisas pequenas pra fugir das grandes,
já me acusaram de muitos crimes mas acho que esse é meu pior hábito.
eu sei que também tenho tido sorte, e que viver não era pra ser assim tão fácil -
mas já que você me perguntou porque eu carrego esse blues no olhar,
seria falta de educação deixar de responder:
insatisfação vem no pacotinho de existir.
talvez tudo melhore mês que vem, solstício que vem,
amor que vem.
talvez piore.
a única certeza é que estaremos em dúvida.
você também não ama paradoxos?
aprendi a deixar pra lá os pesos que machucam as costas,
se você se oferecer pra carregar é claro que eu não vou dizer que não.
te ver partindo naquele trem foi ruim,
mas estou aqui;
esperar você voltar é só mais uma espera que acrescentei ao pacotinho de existir.
comer, dormir, resmungar, esperar.
o que doeu de verdade foi a ironia.
o dia em que você resolveu ir era um domingo - não que você vá lembrar.
era domingo, e eu só reparei quando eu voltei pra casa,
fechei as janelas e apaguei as luzes.
você partiu num trem de domingo, logo você.
você partiu num trem de domingo e eu não chorei.
- aí veio o inverno.
semana passada finalmente conheci nosso vizinho.
foram alguns encontros constrangedores no elevador,
eu com sacolas cheias de garrafas e berinjelas,
naqueles dias em que eu encuquei de só comer berinjelas porque você também gostava.
eu fatiava todas com um carinho desesperado enquanto imaginava você perdendo os dedos do violão em algum acidente -
mas já pedi desculpas pelo meu vodu vegetal.
a bebida era pra misturar com limão e açúcar, que eu estava triste,
mas não tanto pra esquecer do açúcar.
num desses encontros de elevador, ele me perguntou hesitante se eu estava bem.
e eu devo ter respondido com um grunhido algo simpático, porque quando percebi ele estava aqui na cozinha me ajudando com as compras.
eu tentei sorrir e me envergonhei das berinjelas e da vodca, acho que foi nesse dia que resolvi mudar de cardápio. tem coisas que você só percebe quando as pessoas param de te olhar nos olhos.
hoje aceitei o convite pro café.
agora já posso tomar café sem aquela histeria toda,
em parte porque todas as suas canecas já foram quebradas.
em parte porque a cafeína é um hábito sério que não deve ser negligenciado só porque alguém resolveu pegar um trem e foder tua vida.
as janelas da casa dele são todas abertas, e a casa cheia de entulho.
pelo menos foi o que pensei no começo, depois percebi que cada objeto tinha sua função.
não me ocupei muito de formalidades, a velhice dele me conforta, a pele negra dele me conforta -
como se fosse algum parente perdido de papai que eu esqueci de conhecer.
mas o que eu queria mesmo te dizer é que eu acho que nosso vizinho pintor não bate muito bem da cabeça;
te contei que ele é pintor também?
porque quando ele me mostrou as telas dele,
eu juro que todas estavam em branco.
não ser a única maluca por aqui me conforta também.
...
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Nina.
domingo, 22 de novembro de 2009
do desejo - não aquele da hilda.
...
a vida não é feita de amor, é feita de tempo.
eu sei que virão outros homens, outras mulheres, outros olhos pra serem beijados de manhã, outras costas pra serem arranhadas, outras bundas pra apreciar saindo do banho -
outras palavras, as mesmas palavras. novas músicas e planos e poesias.
esquecer dói porque sentir é pra doer. isso não é novidade, a gente aguenta, tá no código genético da entranha.
esquecer é possível porque foi esse o presente que deus nos deixou.
a vida não é pautada no amor, é pautada no tempo.
a mulher da sua vida não sou eu -
é qualquer uma que esteja ao seu lado quando você acordar querendo casa.
vai ser um domingo, você vai estar cansado e cheio de ternura.
a cama vai estar quente e por isso vai parecer uma boa idéia.
talvez seja mesmo.
desejo e futuro são palavras bonitas no papel
mas na prática é tudo sobre sexo.
sexo-tesão, sexo-conforto, sexo-vingança,
sexo pra espantar a solidão
sexo pra dividir algo que é impossível de compartilhar -
sexo pra ter um filho e enfiar algum significado na nossa existência humana mesquinha e pequena.
ainda assim
meu plano é permanecer em sua cama
todos os domingos.
...
a vida não é feita de amor, é feita de tempo.
eu sei que virão outros homens, outras mulheres, outros olhos pra serem beijados de manhã, outras costas pra serem arranhadas, outras bundas pra apreciar saindo do banho -
outras palavras, as mesmas palavras. novas músicas e planos e poesias.
esquecer dói porque sentir é pra doer. isso não é novidade, a gente aguenta, tá no código genético da entranha.
esquecer é possível porque foi esse o presente que deus nos deixou.
a vida não é pautada no amor, é pautada no tempo.
a mulher da sua vida não sou eu -
é qualquer uma que esteja ao seu lado quando você acordar querendo casa.
vai ser um domingo, você vai estar cansado e cheio de ternura.
a cama vai estar quente e por isso vai parecer uma boa idéia.
talvez seja mesmo.
desejo e futuro são palavras bonitas no papel
mas na prática é tudo sobre sexo.
sexo-tesão, sexo-conforto, sexo-vingança,
sexo pra espantar a solidão
sexo pra dividir algo que é impossível de compartilhar -
sexo pra ter um filho e enfiar algum significado na nossa existência humana mesquinha e pequena.
ainda assim
meu plano é permanecer em sua cama
todos os domingos.
...
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Nina.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
potencial pro infinito
..
pra sempre parece muito grande
mas é fácil mensurar
se você for tão ruim de matemática quanto eu
e ir somando
nos dedos
um
mais
um
devagar.
...
pra sempre parece muito grande
mas é fácil mensurar
se você for tão ruim de matemática quanto eu
e ir somando
nos dedos
um
mais
um
devagar.
...
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Nina.
da liberdade
...
é que eu ganhei brilho no olho e alma leve,
que só tive antes quando era criança:
andei na bicicleta sozinha pela primeira vez
e choveu -
você é minha chuva
daquelas que batem geladinhas
tão repentinas e fortes
que você nem se dá conta
que o mundo parou
que tudo molhou
o asfalto fica prateado
a visão fica embaçada
mas você não tem pra onde fugir
não tem como se secar
sua única alternativa
é aproveitar
e você ri sem saber porque
- eu sei porque.
eu sei porque.
é que eu ganhei brilho no olho e alma leve,
que só tive antes quando era criança:
andei na bicicleta sozinha pela primeira vez
e choveu -
você é minha chuva
daquelas que batem geladinhas
tão repentinas e fortes
que você nem se dá conta
que o mundo parou
que tudo molhou
o asfalto fica prateado
a visão fica embaçada
mas você não tem pra onde fugir
não tem como se secar
sua única alternativa
é aproveitar
e você ri sem saber porque
- eu sei porque.
eu sei porque.
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Nina.
sábado, 14 de novembro de 2009
sobre dividir a cama com o sol:
.
de vez em quando acordo queimada
mas nunca mais senti frio.
de vez em quando acordo queimada
mas nunca mais senti frio.
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Nina.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
três acordes
..
juro que você é lindo
brilhando
como o sol
mas distante
como o sol
também
vez por outra me lanço
na tal aventura
de te acompanhar
- me queimar
mas tem tanta terra
entranhada aqui dentro
desaprendi
a voar
é um peso tão grande
é um peso tão grande
é um peso tão grande
guardar o sol
dentro de si.
...
juro que você é lindo
brilhando
como o sol
mas distante
como o sol
também
vez por outra me lanço
na tal aventura
de te acompanhar
- me queimar
mas tem tanta terra
entranhada aqui dentro
desaprendi
a voar
é um peso tão grande
é um peso tão grande
é um peso tão grande
guardar o sol
dentro de si.
...
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Nina.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
história pra boi acordar
...
conheci um homem sem casa
plantamos um chão de trigo e raízes
rezamos um teto de céu e estrelas
construímos paredes de sal e desejos
tiramos o resto de suor e coragem -
no inverno colhemos maças
no verão fazemos amor
as crianças correm atrás dos pombos
dos sonhos
conheci um homem sem asa
esse aí se fodeu mesmo.
teve jeito não.
conheci um homem sem casa
plantamos um chão de trigo e raízes
rezamos um teto de céu e estrelas
construímos paredes de sal e desejos
tiramos o resto de suor e coragem -
no inverno colhemos maças
no verão fazemos amor
as crianças correm atrás dos pombos
dos sonhos
conheci um homem sem asa
esse aí se fodeu mesmo.
teve jeito não.
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Nina.
auto-ajuda:
.
ela sempre quer dizer alguma coisa,
que mulheres são feitas de palavras -
mas ele sempre parece meio perdido dentro da própria caverna,
que homens são feitos de construções,
- às vezes eu só queria que você fizesse
da minha boceta tua caverna.
e olha que nem precisa
de muita escavação;
ela sempre quer dizer alguma coisa,
que mulheres são feitas de palavras -
mas ele sempre parece meio perdido dentro da própria caverna,
que homens são feitos de construções,
- às vezes eu só queria que você fizesse
da minha boceta tua caverna.
e olha que nem precisa
de muita escavação;
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Nina.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
...
não pensei que voltaria aqui tão cedo -
as paredes continuam no mesmo lugar,
é a propriedade inerente do concreto.
já eu estou tão distante da pessoa que fui que quase penso nela com carinho.
quase, mas não ainda.
você fez bem em tirar as fotos e mudar os móveis de lugar.
rodinhas servem para serem arrastadas por aí e nos ajudar a reformular a vida -
lembro que te avisei na loja que queria nossos móveis todos assim:
madeira clara e rodinhas.
te avisei até que achava que as pessoas deveriam, também elas, carregar umas rodinhas.
por isso não entendi sua surpresa.
de qualquer forma, me desculpe se te arrastei rápido demais. definitivo demais.
mas é que te coloquei junto às flores, perto da janela,
e depois percebi que precisava de um pouco mais de claridade.
você se foi, as flores ficaram.
se te serve de consolo, não foi fácil para mim também.
mudar me custou uma pequena fortuna em bebidas alcóolicas e um novo corte de cabelo,
mas suponho que é assim mesmo que se vive:
só posso comprar móveis novos se os antigos tiverem sido doados ao porteiro,
jogados no entulho, queimados;
algumas vezes mudar de lugar não funciona.
experimente atirar janela afora.
escancarar.
não sei com quem estou falando, e nem que tipo de resposta espero -
caminhando por essas paredes de concreto e imobilidade,
com meu coração feito de vento e areia.
a poeira me diz que não te encontrarei tão cedo.
acho que você me realocou também, afinal.
não custa nada deixar um bilhete:
bom não te ver.
vou viver, papai.
..
não pensei que voltaria aqui tão cedo -
as paredes continuam no mesmo lugar,
é a propriedade inerente do concreto.
já eu estou tão distante da pessoa que fui que quase penso nela com carinho.
quase, mas não ainda.
você fez bem em tirar as fotos e mudar os móveis de lugar.
rodinhas servem para serem arrastadas por aí e nos ajudar a reformular a vida -
lembro que te avisei na loja que queria nossos móveis todos assim:
madeira clara e rodinhas.
te avisei até que achava que as pessoas deveriam, também elas, carregar umas rodinhas.
por isso não entendi sua surpresa.
de qualquer forma, me desculpe se te arrastei rápido demais. definitivo demais.
mas é que te coloquei junto às flores, perto da janela,
e depois percebi que precisava de um pouco mais de claridade.
você se foi, as flores ficaram.
se te serve de consolo, não foi fácil para mim também.
mudar me custou uma pequena fortuna em bebidas alcóolicas e um novo corte de cabelo,
mas suponho que é assim mesmo que se vive:
só posso comprar móveis novos se os antigos tiverem sido doados ao porteiro,
jogados no entulho, queimados;
algumas vezes mudar de lugar não funciona.
experimente atirar janela afora.
escancarar.
não sei com quem estou falando, e nem que tipo de resposta espero -
caminhando por essas paredes de concreto e imobilidade,
com meu coração feito de vento e areia.
a poeira me diz que não te encontrarei tão cedo.
acho que você me realocou também, afinal.
não custa nada deixar um bilhete:
bom não te ver.
vou viver, papai.
..
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Nina.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
só mais um.
...
só tenho mais um cigarro, então o tempo é curto:
acabei de assistir um filme do godard, (tão lindo e tão chato que chorei lágrimas de tédio)
em que ele diz - "pra escrever histórias é preciso vivê-las."
eu ri porque usava isso como desculpa pra minha preguiça de escrever,
agora uso isso; me apaixonei por você.
porque é tudo besteira e nada deve ser levado em consideração;
hoje foi mais um dia morto e fiquei pensando na gente e em tudo que faremos -
e na certa dificuldade que algumas pessoas têm de nos deixar em paz.
não, de me deixarem em paz, porque sei que você só fica aí se divertindo.
você sempre fica aí se divertindo,
e eu com meu olhar enviesado, meio emburrada meio intrigada,
me perguntando quietinha quanto tempo todo mundo vai demorar pra finalmente entender
quem você é.
você gosta de palco e eu sou mais sofá,
sua arte é suor e a minha é assim: eu nem tenho que aparecer.
você quer ficar tatuado no tempo e eu quero mais de oito horas diárias de sono.
vamos fazer um livro juntos, porque você é meu personagem favorito.
eu te dou a fama e fico com um canto da sua cama.
só que eu não vou arrumar.
é sempre tão doce e fundo e quente
e dói mas eu sorrio -
prefiro sentimento que caminho
eu tô parada
mas tô ligada
eu tô na sua
porque
sentir também é estrada.
eu te digo que hoje não tenho lugar
nem no ventre
nem na mente
nem no peito
pra abrigar
qualquer coisa que não venha de você.
não sei mais como posso explicar -
escrever com meu sangue é que não vou,
porque viver anda sendo tão bom.
e isso eu devo a você.
..
só tenho mais um cigarro, então o tempo é curto:
acabei de assistir um filme do godard, (tão lindo e tão chato que chorei lágrimas de tédio)
em que ele diz - "pra escrever histórias é preciso vivê-las."
eu ri porque usava isso como desculpa pra minha preguiça de escrever,
agora uso isso; me apaixonei por você.
porque é tudo besteira e nada deve ser levado em consideração;
hoje foi mais um dia morto e fiquei pensando na gente e em tudo que faremos -
e na certa dificuldade que algumas pessoas têm de nos deixar em paz.
não, de me deixarem em paz, porque sei que você só fica aí se divertindo.
você sempre fica aí se divertindo,
e eu com meu olhar enviesado, meio emburrada meio intrigada,
me perguntando quietinha quanto tempo todo mundo vai demorar pra finalmente entender
quem você é.
você gosta de palco e eu sou mais sofá,
sua arte é suor e a minha é assim: eu nem tenho que aparecer.
você quer ficar tatuado no tempo e eu quero mais de oito horas diárias de sono.
vamos fazer um livro juntos, porque você é meu personagem favorito.
eu te dou a fama e fico com um canto da sua cama.
só que eu não vou arrumar.
é sempre tão doce e fundo e quente
e dói mas eu sorrio -
prefiro sentimento que caminho
eu tô parada
mas tô ligada
eu tô na sua
porque
sentir também é estrada.
eu te digo que hoje não tenho lugar
nem no ventre
nem na mente
nem no peito
pra abrigar
qualquer coisa que não venha de você.
não sei mais como posso explicar -
escrever com meu sangue é que não vou,
porque viver anda sendo tão bom.
e isso eu devo a você.
..
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Nina.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
esse eu não editei:
...
você escreve daí, eu escrevo daqui
quero ver do que isso adianta,
quero entender suas poesias abstratas demais pra minha literatura-história
(suas poesias baratas)
quero cada gota de significado que eu perdi
ops, eu perdi
você leu muito rápido
ou muito devagar e eu divaguei.
- repete esse último verso?
não, que esse era pra você
mas pra quem mais você devia escrever, diabos?
eu ponho a cara à tapa, eu sou foda, eu sou foda.
mas que no último minuto eu corro ninguém mais precisa saber.
fiquei com medo quando coloquei aquela foto pra todo mundo ver,
porque ela dizia implicitamente
ou até explicitamente demais
que você é meu
meu, meu.
mas você não é de ninguém,
e depois eu percebi - realmente, quem ia querer carregar tanto peso... ?
eu quero.
vamos brincar de ser um do outro,
eu começo, já que sei que você é uma bichinha medrosa.
eu sou sua e tô fazendo as malas e tô indo atrás do seu destino,
que não vou ficar aqui esperando pelo meu.
eu tô indo,
eu tô indo,
venha me impedir enquanto as calcinhas ainda estão na gaveta.
eu sei mais do que eu digo, espero que você perceba.
aliás, não quero que você perceba nada,
quero que um dia você chegue de madrugada
e olhe pra mim
e se surpreenda mais uma vez.
porque toda vez que eu me distraio e olho pro lado você inventou alguma coisa nova.
assim fica difícil competir.
e você sabe
meu amor
- meu, meu -
que a gente nunca nessa vida vai parar de competir.
eu sei que vai ser divertido
e que jamais usaremos roupas laranjas
e que um dia você vai perder o jogo
e se render
meu, meu.
você escreve daí, eu escrevo daqui
quero ver do que isso adianta,
quero entender suas poesias abstratas demais pra minha literatura-história
(suas poesias baratas)
quero cada gota de significado que eu perdi
ops, eu perdi
você leu muito rápido
ou muito devagar e eu divaguei.
- repete esse último verso?
não, que esse era pra você
mas pra quem mais você devia escrever, diabos?
eu ponho a cara à tapa, eu sou foda, eu sou foda.
mas que no último minuto eu corro ninguém mais precisa saber.
fiquei com medo quando coloquei aquela foto pra todo mundo ver,
porque ela dizia implicitamente
ou até explicitamente demais
que você é meu
meu, meu.
mas você não é de ninguém,
e depois eu percebi - realmente, quem ia querer carregar tanto peso... ?
eu quero.
vamos brincar de ser um do outro,
eu começo, já que sei que você é uma bichinha medrosa.
eu sou sua e tô fazendo as malas e tô indo atrás do seu destino,
que não vou ficar aqui esperando pelo meu.
eu tô indo,
eu tô indo,
venha me impedir enquanto as calcinhas ainda estão na gaveta.
eu sei mais do que eu digo, espero que você perceba.
aliás, não quero que você perceba nada,
quero que um dia você chegue de madrugada
e olhe pra mim
e se surpreenda mais uma vez.
porque toda vez que eu me distraio e olho pro lado você inventou alguma coisa nova.
assim fica difícil competir.
e você sabe
meu amor
- meu, meu -
que a gente nunca nessa vida vai parar de competir.
eu sei que vai ser divertido
e que jamais usaremos roupas laranjas
e que um dia você vai perder o jogo
e se render
meu, meu.
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Nina.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
de pés e plumas
...
por preguiça de abaixar aprendi a pegar tudo com os pés:
caixas de fósforo e conselhos que mamãe insiste em me dar.
pego tudo do chão com os pés.
você vendo de longe confunde com orgulho.
acha que sou altiva demais, distante demais,
não sou desse mundo e por isso não posso me abaixar.
mas em segredo te confesso que é só preguiça, olhe só.
manter a coluna ereta e os pés trabalhando,
a cabeça sempre no céu por preguiça, não por coragem.
ando assim olhando pro alto porque nuvens são mais conforto que poeira,
mas juro que te acho tão bonito assim cheio de terra,
assim cheio de vontade de ter as coisas daqui.
eu não tenho vontade não, tenho mesmo é muito sono.
meus pés são feios assim porque só eles fazem alguma coisa por aqui,
minhas mãos estão ocupadas tecendo sonhos.
que meu destino é de plumas e não de pedras,
as pedras deixo pra ti e pros meus pés.
me chame quando tiver partindo,
mas chame duas vezes, que eu demoro de acordar.
prometo que levo minha leveza e levanto todo dia cedinho pra te dar um beijo,
mas depois me deixe voltar a dormir porque meu destino é de plumas.
você sabe que começo a acordar pelos pés,
eles ficam mexendo sozinhos enquanto eu ainda sonho com alguma coisa bonita.
eu não tenho vontade não, tenho mesmo é muito sono.
mas os pés tão aqui, pegando coisas do chão.
te prometo isso: pés capazes e leveza de plumas.
espero que seja o suficiente, mas se não for vá embora sem fazer barulho:
não me acorde à toa,
não me desperte do sonho:
acaricie meus pés de leve,
eles pegam teu adeus do chão e me dão o recado depois.
...
por preguiça de abaixar aprendi a pegar tudo com os pés:
caixas de fósforo e conselhos que mamãe insiste em me dar.
pego tudo do chão com os pés.
você vendo de longe confunde com orgulho.
acha que sou altiva demais, distante demais,
não sou desse mundo e por isso não posso me abaixar.
mas em segredo te confesso que é só preguiça, olhe só.
manter a coluna ereta e os pés trabalhando,
a cabeça sempre no céu por preguiça, não por coragem.
ando assim olhando pro alto porque nuvens são mais conforto que poeira,
mas juro que te acho tão bonito assim cheio de terra,
assim cheio de vontade de ter as coisas daqui.
eu não tenho vontade não, tenho mesmo é muito sono.
meus pés são feios assim porque só eles fazem alguma coisa por aqui,
minhas mãos estão ocupadas tecendo sonhos.
que meu destino é de plumas e não de pedras,
as pedras deixo pra ti e pros meus pés.
me chame quando tiver partindo,
mas chame duas vezes, que eu demoro de acordar.
prometo que levo minha leveza e levanto todo dia cedinho pra te dar um beijo,
mas depois me deixe voltar a dormir porque meu destino é de plumas.
você sabe que começo a acordar pelos pés,
eles ficam mexendo sozinhos enquanto eu ainda sonho com alguma coisa bonita.
eu não tenho vontade não, tenho mesmo é muito sono.
mas os pés tão aqui, pegando coisas do chão.
te prometo isso: pés capazes e leveza de plumas.
espero que seja o suficiente, mas se não for vá embora sem fazer barulho:
não me acorde à toa,
não me desperte do sonho:
acaricie meus pés de leve,
eles pegam teu adeus do chão e me dão o recado depois.
...
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Nina.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
mundos e fundos
gosto do seu jeito de me ser;
esqueci dos espelhos e ganhei janelas.
só vejo agora essa imensa horta
de brócolis e berinjelas.
na maioria das vezes eu só tenho uma rima ruim.
acho que devia parar com isso de fazer poesia pra você -
até porque não é muito honesto da minha parte te usar pra me preencher.
mas eu gosto do seu jeito de me ter;
e meter toda noite um mundo bem fundo em mim.
..
esqueci dos espelhos e ganhei janelas.
só vejo agora essa imensa horta
de brócolis e berinjelas.
na maioria das vezes eu só tenho uma rima ruim.
acho que devia parar com isso de fazer poesia pra você -
até porque não é muito honesto da minha parte te usar pra me preencher.
mas eu gosto do seu jeito de me ter;
e meter toda noite um mundo bem fundo em mim.
..
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Nina.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
você desloca
..
tô aqui meio bêbada e ouço você dizer lá na sala qualquer coisa assim sobre deslocar um tom na música;
é só isso que você sabe fazer - deslocar.
desloca tanto que eu tô aqui meio bêbada,
sem pescoço, sem ar.
desloca tanto que de vez em quando fica difícil de acompanhar.
mas eu vou
porque gosto mesmo do seu deslocamento
principalmente quando ele é assim:
dentro e fora
dentro e fora
dentro e fora de mim.
tudo pára -
e você desloca.
é só isso que você sabe fazer - deslocar.
desloca tanto que de vez em quando fica difícil de andar.
mas eu vou
porque você nunca vai ser meu chão
mas você é assim:
meu céu
meu céu
meu céu
dentro e fora de mim.
...
tô aqui meio bêbada e ouço você dizer lá na sala qualquer coisa assim sobre deslocar um tom na música;
é só isso que você sabe fazer - deslocar.
desloca tanto que eu tô aqui meio bêbada,
sem pescoço, sem ar.
desloca tanto que de vez em quando fica difícil de acompanhar.
mas eu vou
porque gosto mesmo do seu deslocamento
principalmente quando ele é assim:
dentro e fora
dentro e fora
dentro e fora de mim.
tudo pára -
e você desloca.
é só isso que você sabe fazer - deslocar.
desloca tanto que de vez em quando fica difícil de andar.
mas eu vou
porque você nunca vai ser meu chão
mas você é assim:
meu céu
meu céu
meu céu
dentro e fora de mim.
...
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Nina.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
fetiche
..
mija em mim
mija em mim
pisa em mim
mas bem feito
bem mijado
bem pisado
bem maltratado
me desculpe
se eu derrubei
sua garrafa de caninha
mas olha só:
isso não é motivo
pra você
ironizar minha poesia
tenho uma idéia melhor
porque você não canaliza
essa sua bebedeira mesquinha
do rim até a uretra
e me dá um pouquinho de diversão?
só um pouquinho
de degradação:
mija em mim
pisa em mim
só não ironiza
a porra
da
minha
poesia.
.
mija em mim
mija em mim
pisa em mim
mas bem feito
bem mijado
bem pisado
bem maltratado
me desculpe
se eu derrubei
sua garrafa de caninha
mas olha só:
isso não é motivo
pra você
ironizar minha poesia
tenho uma idéia melhor
porque você não canaliza
essa sua bebedeira mesquinha
do rim até a uretra
e me dá um pouquinho de diversão?
só um pouquinho
de degradação:
mija em mim
pisa em mim
só não ironiza
a porra
da
minha
poesia.
.
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domingo, 30 de agosto de 2009
patologia
...
te contei que meu relógio tem um defeito?
foi assim, o cara disse - o cara da loja de relógios, quero dizer - ele disse:
- olha, se quiser o que eu tenho é esse aqui. ele dá defeito. acelera sem avisar, amanhece que tu nem vê a noite passar.
- antes cedo do que nunca.
antes cedo do que nunca, foi isso mesmo que eu respondi.
na escola me ensinaram matemática.
não aprendi a ter mistério na aura, não aprendi a dizer-não-querendo-dizer-sim,
não aprendi a esconder o riso atrás do mármore.
na escola não te ensinam a fechar as pernas.
meu pedro álvares chegou por aqui cedo demais.
mas na minha terra não tem porra de sabiá nenhum,
tem é muito canibal que eu sei me cuidar.
...
te contei que meu relógio tem um defeito?
foi assim, o cara disse - o cara da loja de relógios, quero dizer - ele disse:
- olha, se quiser o que eu tenho é esse aqui. ele dá defeito. acelera sem avisar, amanhece que tu nem vê a noite passar.
- antes cedo do que nunca.
antes cedo do que nunca, foi isso mesmo que eu respondi.
na escola me ensinaram matemática.
não aprendi a ter mistério na aura, não aprendi a dizer-não-querendo-dizer-sim,
não aprendi a esconder o riso atrás do mármore.
na escola não te ensinam a fechar as pernas.
meu pedro álvares chegou por aqui cedo demais.
mas na minha terra não tem porra de sabiá nenhum,
tem é muito canibal que eu sei me cuidar.
...
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Nina.
sábado, 29 de agosto de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
cordão umbilical e outros demônios.
(esse é da época em que eu era feliz e não sabia -
direto do fundo da gaveta.)
a janela fechada e persianas batendo
barulho ensurdecedor
como se o quarto estivesse cheio de fantasmas.
mas eu sei
é só o vento artificial do ventilador de teto,
não parece engraçado?
vento artificial fazendo viver fantasmas artificiais.
a televisão desligada por meses.
me lembrando que, se eu quisesse.
a televisão me tenta.
a velha caixinha que já guardou tantas coisas, hoje vazia.
nunca mais cheia, desde o último ataque histérico de mamãe.
(que joga tudo no lixo enquanto grita coisas sobre a tarefa cármica que ela supostamente tem -
a de me salvar de mim mesma.)
a caixinha vazia me lembra que, se eu quisesse.
a caixinha vazia me tenta.
sozinha no quarto
cheiro insuportável de cinzeiros velhos espalhados pelo chão.
milênios se passaram e eu aqui.
não sei o que vestir,
cato do chão meu vestido rosa -
aquele que eu usava naquele tempo que passamos na praia.
sim, eu poderia.
mas o cheiro do quarto nem é tão ruim assim depois que você se acostuma.
eu tô bem.
eu tenho um copo de coca,
eu tenho compromissos amanhã,
o ruído TIC TAC do despertador me faz ter certeza de que eu poderia.
eu poderia.
mas não quero.
o ruído TIC TAC do despertador não me tenta.
eu não tô muito bem não.
eu tenho uma foto antiga, não sei quem eu era.
solidão não parece tão ruim quando eu tenho ginsberg.
você já leu ginsberg, mamãe?
ele me lembra que nós não somos locomotivas.
eles querem que a gente pense assim.
(eles quem?)
mas mesmo por trás de toda essa fuligem,
mesmo com as nossas juntas de metal enferrujado,
no fundo todo mundo é mesmo girassol.
a mãe do ginsberg ficou louca, sabe?
pelo menos foi o que todo mundo achou.
antes de morrer ela deixou uma carta pra ele.
disse que a chave está na janela, entre as grades.
e que ela via a chave.
eu chorei por causa disso, mamãe.
você sabe, minha janela tem grades.
mas eu não vi chave alguma.
o que eu tô fazendo de errado?
talvez me falte loucura suficiente pra ver a chave.
deve ser porque eu tenho uma tv e um vento artificial.
porque eu tenho um copo de coca,
porque mamãe me manda dormir cedo,
papai me comprou um despertador branco.
ele faz TIC TAC e eu não durmo.
mamãe me dá dinheiro pros cigarros.
mamãe reclama do cheiro do meu quarto.
eu quero liberdade
mas não sei como isso funciona.
eu vou ter que trabalhar, papai?
pai, você me arranja 10 conto, pai?
sabe, mamãe, não é nada disso que você pensa.
não, hoje eu não posso estudar.
eu tô terminando de ler um livro importante.
ginsberg ainda não me disse o segredo da vida, mamãe.
nem acho que ele o tenha, sabe?
mas ele deve ter chegado perto.
eu também quero, papai, fazer algo grande.
mãe, hoje eu não vou sair de casa.
o sono me chama; vou deitar, fumar um baseado e tentar achar nos sonhos o que não acho por aqui.
eu sonhei que você morria, mamãe.
só que você me perseguia pra sempre em espírito,
me dizendo o que fazer.
papai, eu juro que essas pílulas não são minhas.
mamãe, eu larguei a marijuana.
acredita em mim?
ela não me leva mais a lugar nenhum.
(e o que leva?)
eu tentei, sabe?
vou pra amsterdã comprar heroína, papai.
depois vou virar poeta e morrer com 21 anos.
como assim, papai?
não te parece um plano legal?
mas então porque todo mundo tem livros na estante
de caras que fizeram isso?
eu sou tão esperta, sabe?
eu sei de tudo.
eu já tenho 17 anos!
pai, me arranja dois reais pro cigarro?
pai, eu só tenho 17 anos.
mamãe, eu tenho medo dos meus fantasmas artificiais.
eu nunca quis sentir isso.
eu não posso fazer mais nada.
eu já escolhi o lado esquerdo.
vocês sabem, eu sou canhota.
mamãe, porque você não me entende mais?
não fui eu que mudei.
mamãe eu juro vou ser boa menina.
vou queimar meus livros que corrompem minha sanidade,
vou largar as drogas que você acha que eu tomo,
vou ligar a tv
vou lavar a louça
vou abrir a janela e varrer o quarto.
vou deixar o sol entrar.
você vai me amar de novo assim?
papai, você volta a me olhar nos olhos se eu parar de fazer sexo com ele?
não, eu não tenho tudo.
eu sei que você me dá tudo que meu corpo precisa.
mas, mamãe, você acredita em alma?
mamãe, você acredita em amor?
eu não preciso de dinheiro
eu quero ser muito rica
eu não ligo pro que vocês pensam
eu quero conhecer o mundo
eu quero viver pra sempre nesse quarto escuro.
eu quero um filho dele
eu quero experimentar de tudo
eu não acredito em monogamia
eu sou pra sempre só dele
casamento é uma instituição falida
eu vou casar com ele de vestidinho hippie branco e descalça,
e ele vai tirar o rayban pra me olhar nos olhos e dizer sim.
mas não joguem arroz em mim,
guardem o arroz,
eu vou precisar do arroz pra comer.
baby, as pessoas é que são instituições falidas, ele disse.
mas eu achei ele.
o caminho é longo e parece cansativo.
papai, me leva no seu carro até o horizonte?
papai, eu queria ter você de volta, como antes.
eu vou ficar bem.
ei, eu ainda moro aqui.
baby, a vida é uma loteria.
mas acho que quem ganha, morre.
vocês não sentem falta de algo por dentro?
revejo velhos amigos.
ninguém tem nada pra dizer.
eu não consigo me acostumar
alguma
coisa
tem
que
acontecer.
não sei com quem eu tô falando aqui.
o barulho das persianas me desperta.
os malditos fantasmas artificiais.
juro que não sou maluca
juro que me esforço pra ser.
descobri que sou um clichê muito, muito batido.
desculpa, papai.
não lembro a última vez que te abracei.
mas deitar na sua barriga e esquentar minhas mãos frias entre suas coxas
- lembra quando era inverno lá em são paulo e eu fazia isso? -
quando eu ainda era só sua garotinha.
essa ainda é minha sensação favorita.
não, mamãe, eu não vou estudar agora.
eu tô ocupada depilando minha virilha.
sabe, ele gosta quando eu tô bem lisinha.
isso é mais importante que matemática, sabe?
o alimento da minha alma
é o sêmen dele.
Amargo e Sagrado.
exatamente como o Amor.
você não respondeu, mamãe.
você acredita em amor?
você ainda acredita em mim?
não sei com quem eu tô falando aqui.
pai, você me leva de carro até o horizonte?
.
direto do fundo da gaveta.)
a janela fechada e persianas batendo
barulho ensurdecedor
como se o quarto estivesse cheio de fantasmas.
mas eu sei
é só o vento artificial do ventilador de teto,
não parece engraçado?
vento artificial fazendo viver fantasmas artificiais.
a televisão desligada por meses.
me lembrando que, se eu quisesse.
a televisão me tenta.
a velha caixinha que já guardou tantas coisas, hoje vazia.
nunca mais cheia, desde o último ataque histérico de mamãe.
(que joga tudo no lixo enquanto grita coisas sobre a tarefa cármica que ela supostamente tem -
a de me salvar de mim mesma.)
a caixinha vazia me lembra que, se eu quisesse.
a caixinha vazia me tenta.
sozinha no quarto
cheiro insuportável de cinzeiros velhos espalhados pelo chão.
milênios se passaram e eu aqui.
não sei o que vestir,
cato do chão meu vestido rosa -
aquele que eu usava naquele tempo que passamos na praia.
sim, eu poderia.
mas o cheiro do quarto nem é tão ruim assim depois que você se acostuma.
eu tô bem.
eu tenho um copo de coca,
eu tenho compromissos amanhã,
o ruído TIC TAC do despertador me faz ter certeza de que eu poderia.
eu poderia.
mas não quero.
o ruído TIC TAC do despertador não me tenta.
eu não tô muito bem não.
eu tenho uma foto antiga, não sei quem eu era.
solidão não parece tão ruim quando eu tenho ginsberg.
você já leu ginsberg, mamãe?
ele me lembra que nós não somos locomotivas.
eles querem que a gente pense assim.
(eles quem?)
mas mesmo por trás de toda essa fuligem,
mesmo com as nossas juntas de metal enferrujado,
no fundo todo mundo é mesmo girassol.
a mãe do ginsberg ficou louca, sabe?
pelo menos foi o que todo mundo achou.
antes de morrer ela deixou uma carta pra ele.
disse que a chave está na janela, entre as grades.
e que ela via a chave.
eu chorei por causa disso, mamãe.
você sabe, minha janela tem grades.
mas eu não vi chave alguma.
o que eu tô fazendo de errado?
talvez me falte loucura suficiente pra ver a chave.
deve ser porque eu tenho uma tv e um vento artificial.
porque eu tenho um copo de coca,
porque mamãe me manda dormir cedo,
papai me comprou um despertador branco.
ele faz TIC TAC e eu não durmo.
mamãe me dá dinheiro pros cigarros.
mamãe reclama do cheiro do meu quarto.
eu quero liberdade
mas não sei como isso funciona.
eu vou ter que trabalhar, papai?
pai, você me arranja 10 conto, pai?
sabe, mamãe, não é nada disso que você pensa.
não, hoje eu não posso estudar.
eu tô terminando de ler um livro importante.
ginsberg ainda não me disse o segredo da vida, mamãe.
nem acho que ele o tenha, sabe?
mas ele deve ter chegado perto.
eu também quero, papai, fazer algo grande.
mãe, hoje eu não vou sair de casa.
o sono me chama; vou deitar, fumar um baseado e tentar achar nos sonhos o que não acho por aqui.
eu sonhei que você morria, mamãe.
só que você me perseguia pra sempre em espírito,
me dizendo o que fazer.
papai, eu juro que essas pílulas não são minhas.
mamãe, eu larguei a marijuana.
acredita em mim?
ela não me leva mais a lugar nenhum.
(e o que leva?)
eu tentei, sabe?
vou pra amsterdã comprar heroína, papai.
depois vou virar poeta e morrer com 21 anos.
como assim, papai?
não te parece um plano legal?
mas então porque todo mundo tem livros na estante
de caras que fizeram isso?
eu sou tão esperta, sabe?
eu sei de tudo.
eu já tenho 17 anos!
pai, me arranja dois reais pro cigarro?
pai, eu só tenho 17 anos.
mamãe, eu tenho medo dos meus fantasmas artificiais.
eu nunca quis sentir isso.
eu não posso fazer mais nada.
eu já escolhi o lado esquerdo.
vocês sabem, eu sou canhota.
mamãe, porque você não me entende mais?
não fui eu que mudei.
mamãe eu juro vou ser boa menina.
vou queimar meus livros que corrompem minha sanidade,
vou largar as drogas que você acha que eu tomo,
vou ligar a tv
vou lavar a louça
vou abrir a janela e varrer o quarto.
vou deixar o sol entrar.
você vai me amar de novo assim?
papai, você volta a me olhar nos olhos se eu parar de fazer sexo com ele?
não, eu não tenho tudo.
eu sei que você me dá tudo que meu corpo precisa.
mas, mamãe, você acredita em alma?
mamãe, você acredita em amor?
eu não preciso de dinheiro
eu quero ser muito rica
eu não ligo pro que vocês pensam
eu quero conhecer o mundo
eu quero viver pra sempre nesse quarto escuro.
eu quero um filho dele
eu quero experimentar de tudo
eu não acredito em monogamia
eu sou pra sempre só dele
casamento é uma instituição falida
eu vou casar com ele de vestidinho hippie branco e descalça,
e ele vai tirar o rayban pra me olhar nos olhos e dizer sim.
mas não joguem arroz em mim,
guardem o arroz,
eu vou precisar do arroz pra comer.
baby, as pessoas é que são instituições falidas, ele disse.
mas eu achei ele.
o caminho é longo e parece cansativo.
papai, me leva no seu carro até o horizonte?
papai, eu queria ter você de volta, como antes.
eu vou ficar bem.
ei, eu ainda moro aqui.
baby, a vida é uma loteria.
mas acho que quem ganha, morre.
vocês não sentem falta de algo por dentro?
revejo velhos amigos.
ninguém tem nada pra dizer.
eu não consigo me acostumar
alguma
coisa
tem
que
acontecer.
não sei com quem eu tô falando aqui.
o barulho das persianas me desperta.
os malditos fantasmas artificiais.
juro que não sou maluca
juro que me esforço pra ser.
descobri que sou um clichê muito, muito batido.
desculpa, papai.
não lembro a última vez que te abracei.
mas deitar na sua barriga e esquentar minhas mãos frias entre suas coxas
- lembra quando era inverno lá em são paulo e eu fazia isso? -
quando eu ainda era só sua garotinha.
essa ainda é minha sensação favorita.
não, mamãe, eu não vou estudar agora.
eu tô ocupada depilando minha virilha.
sabe, ele gosta quando eu tô bem lisinha.
isso é mais importante que matemática, sabe?
o alimento da minha alma
é o sêmen dele.
Amargo e Sagrado.
exatamente como o Amor.
você não respondeu, mamãe.
você acredita em amor?
você ainda acredita em mim?
não sei com quem eu tô falando aqui.
pai, você me leva de carro até o horizonte?
.
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Nina.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
the boulevard is not that bad.
..
hoje voltei a sair de casa.
fazia tanto tempo que meus passos soaram inseguros nas calçadas, que tropecei em frente a banca de frutas, que não soube o que fazer com as mãos e acendi um cigarro. depois outro.
esperei o ônibus, e agradeci a chuva de começou a cair de repente, o frio te dá propósito na espera. o frio é um bom motivo, a chuva é um ótimo motivo: pra sair, pra esperar, pra ficar.
na chuva as outras pessoas sempre estão ocupadas o suficiente pra não te notar.
enquanto o ônibus passava pelas ruas enlameadas e cinzentas - é tão raro as ruas por aqui ficarem assim, cinzentas. eu prefiro. - quase que me esqueço pra onde mesmo estava indo.
e quando cheguei, quase que me esqueço do porquê.
mas eu fiz. levantei e vim viver. não me pareceu grande coisa até agora, mas a chuva é um motivo.
a chuva é um ótimo motivo.
..
hoje voltei a sair de casa.
fazia tanto tempo que meus passos soaram inseguros nas calçadas, que tropecei em frente a banca de frutas, que não soube o que fazer com as mãos e acendi um cigarro. depois outro.
esperei o ônibus, e agradeci a chuva de começou a cair de repente, o frio te dá propósito na espera. o frio é um bom motivo, a chuva é um ótimo motivo: pra sair, pra esperar, pra ficar.
na chuva as outras pessoas sempre estão ocupadas o suficiente pra não te notar.
enquanto o ônibus passava pelas ruas enlameadas e cinzentas - é tão raro as ruas por aqui ficarem assim, cinzentas. eu prefiro. - quase que me esqueço pra onde mesmo estava indo.
e quando cheguei, quase que me esqueço do porquê.
mas eu fiz. levantei e vim viver. não me pareceu grande coisa até agora, mas a chuva é um motivo.
a chuva é um ótimo motivo.
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009
in memoriam.
...
eles estão ocupados arrastando os teus móveis, mudando tudo de lugar.
começam pela tua cama, querem trazer a da tua irmã pro quarto.
é grande e pesada, e eu sei que eles precisam da minha ajuda,
mas fico aqui sentada encarando a mudança com os olhos vazios,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse atrasar alguma coisa,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse trazer você de volta.
depois da cama é a vez do armário -
toda a tua bagunça dentro.
eles arrastam o armário, e é como se meu coração estivesse ali dentro,
toda a tua bagunça dentro,
meu coração dentro.
eles reparam que o armário é antigo e vai desmontar,
me olham cobrando ajuda.
mas eu fico aqui,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse fazer o chão abrir e engolir tudo -
a mudança, o armário que vai desmontar, meu coração que vai desmontar, você.
eles são desastrados, e eu prevejo minutos antes de acontecer,
as coisas de cima do armário caem todas -
os desenhos e os módulos antigos do nosso colegial,
aqueles que continuam em branco.
agora eles empacaram com o armário na porta,
e eu abro um sorriso devagar,
porque cada minuto de atraso é um minuto que eu ganho,
um minuto a mais do teu quarto, das tuas coisas,
de você.
fisiologia do aparelho urinário, me diz o livro aberto em uma página ao acaso,
caiu do armário também.
não aprendi nada sobre os mistérios do aparelho urinário em todos esses anos,
mas aprendi bastante sobre a vida;
você me ensinou bastante sobre a vida,
e sobre sorrisos. - a parte da imobilidade diante da mudança eu aprendi sozinha.
agora o armário quebrou de vez,
eles arrastam e suam e praguejam,
e me culpam -
como se meu olhar vazio e meu sorriso fossem os culpados do desastre,
como se minha imobilidade tivesse feito teu armário ruir.
talvez tenha sido mesmo.
peguei alguns desenhos antigos teus, eles caíram também,
caíram junto com todo o resto que ruiu -
teu armário; meu coração.
ainda penso uma última vez em barganhar,
trocar minha ajuda por uma promessa de que ela manterá a parede intacta -
a parede com os desenhos, a parede onde escrevi pra você:
"qual anjo protegerá o cara que não dá o braço a anjo algum?"
agora é que eu não sei mesmo.
mas no fim das contas desisto da idéia,
é só uma parede,
são só coisas, só móveis, só um quarto,
eu sei,
eu sei.
mas a gente faz o que pode,
se apega aos pequenos detalhes.
aos formatos que a felicidade toma.
e a minha tinha um formato bastante específico:
eu, você, teu armário, tua cama, tua parede, meu coração.
eles vão continuar agora.
eu sei que é inevitável,
que não posso te trazer de volta,
que não posso sequer manter o teu ridículo armário quebrado onde ele deveria estar.
mas eu prometo
que meus olhares vão atrasar a mudança
tanto quanto puderem.
agora eles desistiram de salvar o armário.
vão desmontar e jogar fora.
vão colocar suas coisas em sacos azuis de lixo.
e fico imaginando o que você diria sobre isso,
mas eu levantei e recolhi algumas coisas pra mim.
olha só, deixa eu explicar:
tem algumas coisas aqui que eu não suportaria ver sendo enfiadas em sacos de lixo,
de qualquer cor que sejam.
tua pasta de desenhos,
aquela tela que você nem achava tão boa assim,
o isqueiro que eu te dei - e você nunca usou.
uns esboços do primeiro semestre da faculdade,
são ruinzinhos mas são teus.
aquela bolsa antiga, rabiscada com nomes e recados das suas meninas de outras épocas,
onde você também anotou meu telefone,
num dia qualquer há tanto tempo atrás.
se eu pudesse eu levava mais -
mas é que já tá tudo tão pesado por aqui.
agora eles estão descendo com os restos do armário.
perguntam uma última vez se eu não vou mesmo ajudar.
- não.
quer saber uma coisa engraçada?
no meio da bagunça que o desabamento do armário causou,
acharam alguns exames antigos teus,
e eu rí tanto quando abri e vi a ultrasonografia da tua bexiga,
- logo eu que não aprendi nada sobre aparelho urinário.
e tem outras, dos teus rins,
teus rins intactos e perfeitos, apesar do tratamento pouco lisonjeiro que receberam durante toda sua vida.
mas as melhores são as ultrasonografias dos teus testículos,
- logo eu que achava que sabia tudo sobre teus testículos,
agora também sei que eles medem 3,9 x 2,3 x 3,0 cm - o direito,
e 4,0 x 2,2 x 2,9 - o esquerdo.
na verdade, acho mesmo é que não ando muito certa da cabeça;
EU SEI QUE VOCÊ NÃO MORREU
MAS É QUE ALGUMA COISA MORREU AQUI DENTRO.
...
eles estão ocupados arrastando os teus móveis, mudando tudo de lugar.
começam pela tua cama, querem trazer a da tua irmã pro quarto.
é grande e pesada, e eu sei que eles precisam da minha ajuda,
mas fico aqui sentada encarando a mudança com os olhos vazios,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse atrasar alguma coisa,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse trazer você de volta.
depois da cama é a vez do armário -
toda a tua bagunça dentro.
eles arrastam o armário, e é como se meu coração estivesse ali dentro,
toda a tua bagunça dentro,
meu coração dentro.
eles reparam que o armário é antigo e vai desmontar,
me olham cobrando ajuda.
mas eu fico aqui,
como se de alguma forma minha imobilidade pudesse fazer o chão abrir e engolir tudo -
a mudança, o armário que vai desmontar, meu coração que vai desmontar, você.
eles são desastrados, e eu prevejo minutos antes de acontecer,
as coisas de cima do armário caem todas -
os desenhos e os módulos antigos do nosso colegial,
aqueles que continuam em branco.
agora eles empacaram com o armário na porta,
e eu abro um sorriso devagar,
porque cada minuto de atraso é um minuto que eu ganho,
um minuto a mais do teu quarto, das tuas coisas,
de você.
fisiologia do aparelho urinário, me diz o livro aberto em uma página ao acaso,
caiu do armário também.
não aprendi nada sobre os mistérios do aparelho urinário em todos esses anos,
mas aprendi bastante sobre a vida;
você me ensinou bastante sobre a vida,
e sobre sorrisos. - a parte da imobilidade diante da mudança eu aprendi sozinha.
agora o armário quebrou de vez,
eles arrastam e suam e praguejam,
e me culpam -
como se meu olhar vazio e meu sorriso fossem os culpados do desastre,
como se minha imobilidade tivesse feito teu armário ruir.
talvez tenha sido mesmo.
peguei alguns desenhos antigos teus, eles caíram também,
caíram junto com todo o resto que ruiu -
teu armário; meu coração.
ainda penso uma última vez em barganhar,
trocar minha ajuda por uma promessa de que ela manterá a parede intacta -
a parede com os desenhos, a parede onde escrevi pra você:
"qual anjo protegerá o cara que não dá o braço a anjo algum?"
agora é que eu não sei mesmo.
mas no fim das contas desisto da idéia,
é só uma parede,
são só coisas, só móveis, só um quarto,
eu sei,
eu sei.
mas a gente faz o que pode,
se apega aos pequenos detalhes.
aos formatos que a felicidade toma.
e a minha tinha um formato bastante específico:
eu, você, teu armário, tua cama, tua parede, meu coração.
eles vão continuar agora.
eu sei que é inevitável,
que não posso te trazer de volta,
que não posso sequer manter o teu ridículo armário quebrado onde ele deveria estar.
mas eu prometo
que meus olhares vão atrasar a mudança
tanto quanto puderem.
agora eles desistiram de salvar o armário.
vão desmontar e jogar fora.
vão colocar suas coisas em sacos azuis de lixo.
e fico imaginando o que você diria sobre isso,
mas eu levantei e recolhi algumas coisas pra mim.
olha só, deixa eu explicar:
tem algumas coisas aqui que eu não suportaria ver sendo enfiadas em sacos de lixo,
de qualquer cor que sejam.
tua pasta de desenhos,
aquela tela que você nem achava tão boa assim,
o isqueiro que eu te dei - e você nunca usou.
uns esboços do primeiro semestre da faculdade,
são ruinzinhos mas são teus.
aquela bolsa antiga, rabiscada com nomes e recados das suas meninas de outras épocas,
onde você também anotou meu telefone,
num dia qualquer há tanto tempo atrás.
se eu pudesse eu levava mais -
mas é que já tá tudo tão pesado por aqui.
agora eles estão descendo com os restos do armário.
perguntam uma última vez se eu não vou mesmo ajudar.
- não.
quer saber uma coisa engraçada?
no meio da bagunça que o desabamento do armário causou,
acharam alguns exames antigos teus,
e eu rí tanto quando abri e vi a ultrasonografia da tua bexiga,
- logo eu que não aprendi nada sobre aparelho urinário.
e tem outras, dos teus rins,
teus rins intactos e perfeitos, apesar do tratamento pouco lisonjeiro que receberam durante toda sua vida.
mas as melhores são as ultrasonografias dos teus testículos,
- logo eu que achava que sabia tudo sobre teus testículos,
agora também sei que eles medem 3,9 x 2,3 x 3,0 cm - o direito,
e 4,0 x 2,2 x 2,9 - o esquerdo.
na verdade, acho mesmo é que não ando muito certa da cabeça;
EU SEI QUE VOCÊ NÃO MORREU
MAS É QUE ALGUMA COISA MORREU AQUI DENTRO.
...
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Nina.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
sinceridade alcóolica
...
e eu disse pra você na mesa do bar, esqueci o nome do bar, e olha que eu coleciono nomes de bar,
tem aquele engraçado lá em niterói, tio cotó, e é claro que o banheiro era imundo, porque tio cotó não era lá muito bom na limpeza, ha-ha, lembra? ou não era com você que eu fui lá?
mas o que eu tava dizendo, naquele bar, era em vila isabel, lembra nossa viagem pro rio?
é, eu fui em niterói encontrar uns amigos e você ficou bebendo sozinho e tocando violão,
ou cozinhando, ou produzindo mais alguma coisa pra você mesmo, ou mudando de modo de vida,
porque você tá sempre produzindo alguma coisa pra você mesmo e eu encontrando amigos,
mas sempre tem um bar, e eu esqueci o nome desse.
só queria mesmo era dizer que eu menti, lembro que te disse "se você escrever um livro antes de mim eu não te perdôo", e eu menti.
não, claro que eu não te perdôo mesmo, é que eu nunca comecei a escrever porra nenhuma, então pode ser que demore um pouco.
agora você tá aí, deus sabe aonde, provavelmente bebendo sozinho e tocando violão, ou cozinhando, ou produzindo, ou mudando de modo de vida,
e eu ainda não comecei a escrever porra nenhuma,
então pode ser que demore um pouco. era isso.
..
e eu disse pra você na mesa do bar, esqueci o nome do bar, e olha que eu coleciono nomes de bar,
tem aquele engraçado lá em niterói, tio cotó, e é claro que o banheiro era imundo, porque tio cotó não era lá muito bom na limpeza, ha-ha, lembra? ou não era com você que eu fui lá?
mas o que eu tava dizendo, naquele bar, era em vila isabel, lembra nossa viagem pro rio?
é, eu fui em niterói encontrar uns amigos e você ficou bebendo sozinho e tocando violão,
ou cozinhando, ou produzindo mais alguma coisa pra você mesmo, ou mudando de modo de vida,
porque você tá sempre produzindo alguma coisa pra você mesmo e eu encontrando amigos,
mas sempre tem um bar, e eu esqueci o nome desse.
só queria mesmo era dizer que eu menti, lembro que te disse "se você escrever um livro antes de mim eu não te perdôo", e eu menti.
não, claro que eu não te perdôo mesmo, é que eu nunca comecei a escrever porra nenhuma, então pode ser que demore um pouco.
agora você tá aí, deus sabe aonde, provavelmente bebendo sozinho e tocando violão, ou cozinhando, ou produzindo, ou mudando de modo de vida,
e eu ainda não comecei a escrever porra nenhuma,
então pode ser que demore um pouco. era isso.
..
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Nina.
bruta flor
..
você sabe que eu quero mesmo ir pro mar,
e fazer aquela tatuagem de âncora,
e comprar aquele pó do rio que me disseram que é o melhor.
mas aí você ri de mim,
e diz que eu sou sua menina,
e aí eu rio de você
e digo fique aí achando,
mas você fica mesmo,
e eu esqueço o mar e a âncora e o pó
e fico querendo um filho teu.
..
você sabe que eu quero mesmo ir pro mar,
e fazer aquela tatuagem de âncora,
e comprar aquele pó do rio que me disseram que é o melhor.
mas aí você ri de mim,
e diz que eu sou sua menina,
e aí eu rio de você
e digo fique aí achando,
mas você fica mesmo,
e eu esqueço o mar e a âncora e o pó
e fico querendo um filho teu.
..
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Nina.
sábado, 8 de agosto de 2009
sobre casa
.
ainda sinto o gosto daquela pastilha de anis,
dessas que não vendem mais.
e você no seu jeans cintura alta,
desses que não usam mais.
(e sempre tão bonita)
ainda molho o pão com manteiga no café com leite,
porque era assim que ele fazia, seu pai,
meu avô,
de gestos bruscos e olhar terno.
mergulhar a mão fundo no feijão de molho,
enterrar caroços de manga no jardim do prédio,
porque claro que eles cresceriam.
o tempo em que todos os caroços de manga cresceriam.
as luzes do natal.
pêssego em calda.
melancia até a parte branca,
- vai dar dor de barriga.
o relógio soando meia-noite,
a madeira brilhante dos móveis,
o rangido familiar de cada porta.
lasanha de frango no domingo,
domingo é dia de tédio e futebol na tv,
domingo é dia de inventar o que fazer,
ficar na janela decorando os objetos da varanda do vizinho,
contar quantos carros que passam tem teto-solar,
- pai, a gente pode ter carro com teto-solar?
o cheiro,
meu cheiro favorito no mundo:
hoje eu aprendi que é cheiro de velhice.
os bonequinhos camponeses,
o que será que foi feito deles?
- esse é casado com essa.
as fotos antigas na estante,
o tio de barba é mau,
o outro traz presentes.
vovô gostava de passar roupa no quartinho dos fundos,
ouvindo as mesmas músicas de sempre,
dessas que não tocam mais.
aquele dia eu queria ter ficado mais, vô.
pra sempre.
eu só queria ter ficado
no tempo dos caroços de manga,
do cheiro,
no tempo do natal.
...
ainda sinto o gosto daquela pastilha de anis,
dessas que não vendem mais.
e você no seu jeans cintura alta,
desses que não usam mais.
(e sempre tão bonita)
ainda molho o pão com manteiga no café com leite,
porque era assim que ele fazia, seu pai,
meu avô,
de gestos bruscos e olhar terno.
mergulhar a mão fundo no feijão de molho,
enterrar caroços de manga no jardim do prédio,
porque claro que eles cresceriam.
o tempo em que todos os caroços de manga cresceriam.
as luzes do natal.
pêssego em calda.
melancia até a parte branca,
- vai dar dor de barriga.
o relógio soando meia-noite,
a madeira brilhante dos móveis,
o rangido familiar de cada porta.
lasanha de frango no domingo,
domingo é dia de tédio e futebol na tv,
domingo é dia de inventar o que fazer,
ficar na janela decorando os objetos da varanda do vizinho,
contar quantos carros que passam tem teto-solar,
- pai, a gente pode ter carro com teto-solar?
o cheiro,
meu cheiro favorito no mundo:
hoje eu aprendi que é cheiro de velhice.
os bonequinhos camponeses,
o que será que foi feito deles?
- esse é casado com essa.
as fotos antigas na estante,
o tio de barba é mau,
o outro traz presentes.
vovô gostava de passar roupa no quartinho dos fundos,
ouvindo as mesmas músicas de sempre,
dessas que não tocam mais.
aquele dia eu queria ter ficado mais, vô.
pra sempre.
eu só queria ter ficado
no tempo dos caroços de manga,
do cheiro,
no tempo do natal.
...
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Nina.
cartas que não enviei
II
vem que o mundo é mais suave do que parece,
que sentir medo-e-culpa-e-dor é coisa que não me apetece,
que quero viver livre-e-leve-e-solta e todos os outros clichês ridículos,
e tudo isso com você.
vem que eu tô na verdade é muito cansada
de ter opiniões-e-justificativas-e-palavras,
de ter sempre a resposta na ponta da língua,
que a vida é um segundo,
que viver nem é tão profundo,
a gente nasce
e cresce
e deseja
e planeja
e faz - ou não faz.
e morre,
e é isso,
e olha só que lindo,
e olha só que cruel,
e é fácil - e não é.
mas sabe?
vem, que E Daí é meu novo verso,
é o lema do meu universo,
vem que eu quero você,
quero o que tiver que ser,
e se não for a gente faz ser,
que meu sonho se estende
se multiplica
se modifica
mas nunca se esquece
nunca se rende.
VEM,
que eu também não tenho muitos mais motivos,
além da vontade, da possibilidade e da minha lubricidade.
vem logo, porra.
.
vem que o mundo é mais suave do que parece,
que sentir medo-e-culpa-e-dor é coisa que não me apetece,
que quero viver livre-e-leve-e-solta e todos os outros clichês ridículos,
e tudo isso com você.
vem que eu tô na verdade é muito cansada
de ter opiniões-e-justificativas-e-palavras,
de ter sempre a resposta na ponta da língua,
que a vida é um segundo,
que viver nem é tão profundo,
a gente nasce
e cresce
e deseja
e planeja
e faz - ou não faz.
e morre,
e é isso,
e olha só que lindo,
e olha só que cruel,
e é fácil - e não é.
mas sabe?
vem, que E Daí é meu novo verso,
é o lema do meu universo,
vem que eu quero você,
quero o que tiver que ser,
e se não for a gente faz ser,
que meu sonho se estende
se multiplica
se modifica
mas nunca se esquece
nunca se rende.
VEM,
que eu também não tenho muitos mais motivos,
além da vontade, da possibilidade e da minha lubricidade.
vem logo, porra.
.
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
hoje
...
e de repente eu passei a brincar com a idéia,
me entregar a essa doce idéia,
e foi assim brincando que eu tranqüilamente tirei as suas roupas do varal,
e numa espécie de jogo secreto comigo mesma
cantarolei uma melodia sem nome -
a melodia sem nome guardada no fundo da garganta das mulheres,
que escapa por entre os lábios quando tranqüilamente tiramos roupas do varal,
damos banho num filho ou decidimos que aquele homem tem o cheiro certo.
depois eu comi o arroz e a carne de porco que você cozinhou,
comi com as mãos e sentada no chão,
porque hoje a vida veio simples.
desejei mais chão e mais varal,
bebi o café frio e desejei mais chão e mais varal,
e talvez até poeira, poeira vermelha e terra,
e brotou um sertão em mim - quente e estranhamente familiar.
eu sei que amanhã eu acordo
e lembro que não vim nesse mundo pra cantarolar canção alguma.
mas hoje a vida veio simples
e meu desejo é de varal, varal ao sol, varal ao vento, mil vezes varal,
jardim de varal, um infinito de varal, -
...
e de repente eu passei a brincar com a idéia,
me entregar a essa doce idéia,
e foi assim brincando que eu tranqüilamente tirei as suas roupas do varal,
e numa espécie de jogo secreto comigo mesma
cantarolei uma melodia sem nome -
a melodia sem nome guardada no fundo da garganta das mulheres,
que escapa por entre os lábios quando tranqüilamente tiramos roupas do varal,
damos banho num filho ou decidimos que aquele homem tem o cheiro certo.
depois eu comi o arroz e a carne de porco que você cozinhou,
comi com as mãos e sentada no chão,
porque hoje a vida veio simples.
desejei mais chão e mais varal,
bebi o café frio e desejei mais chão e mais varal,
e talvez até poeira, poeira vermelha e terra,
e brotou um sertão em mim - quente e estranhamente familiar.
eu sei que amanhã eu acordo
e lembro que não vim nesse mundo pra cantarolar canção alguma.
mas hoje a vida veio simples
e meu desejo é de varal, varal ao sol, varal ao vento, mil vezes varal,
jardim de varal, um infinito de varal, -
...
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
sobre pedir desculpas.
...
e eu sei que isso não é algo pra se contar assim, como se eu me orgulhasse do que fiz, mas cara, a verdade é que eu me orgulho mesmo.
não é todo dia que você deseja-e-conquista, não é toda vez que o prêmio cai direto da garra-mecânica pra sua mão inquieta.
a casa sempre vence, é o que dizem, não há lugar no mundo pra muita querência, dizem isso também, mas de vez em quando uma pessoa como eu tem sorte.
algumas pessoas são feitas de querer e sorte, você vai à luta e se cansa, e eu sou querer e sorte, que a vida não presta muita atenção nisso de merecimento.
e eu sei que isso não é algo pra se contar assim, como se eu me orgulhasse do que fiz, mas cara, a verdade é que eu me orgulho mesmo.
me desculpe se você achava que alguma coisa por aqui te pertencia, mas sabe, no fim do dia poucas coisas são nossas de verdade.
e a amargura pode ficar pra ti, que por aqui vai tudo bem.
eu ando dormindo bastante, o querer do meu lado, e a sorte espreita nosso sono -
o sono dos injustos.
...
e eu sei que isso não é algo pra se contar assim, como se eu me orgulhasse do que fiz, mas cara, a verdade é que eu me orgulho mesmo.
não é todo dia que você deseja-e-conquista, não é toda vez que o prêmio cai direto da garra-mecânica pra sua mão inquieta.
a casa sempre vence, é o que dizem, não há lugar no mundo pra muita querência, dizem isso também, mas de vez em quando uma pessoa como eu tem sorte.
algumas pessoas são feitas de querer e sorte, você vai à luta e se cansa, e eu sou querer e sorte, que a vida não presta muita atenção nisso de merecimento.
e eu sei que isso não é algo pra se contar assim, como se eu me orgulhasse do que fiz, mas cara, a verdade é que eu me orgulho mesmo.
me desculpe se você achava que alguma coisa por aqui te pertencia, mas sabe, no fim do dia poucas coisas são nossas de verdade.
e a amargura pode ficar pra ti, que por aqui vai tudo bem.
eu ando dormindo bastante, o querer do meu lado, e a sorte espreita nosso sono -
o sono dos injustos.
...
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domingo, 26 de julho de 2009
...
de vez em quando eu bebo café frio, é a preguiça, você sabe.
mas seu olhar é sempre quente.
eu prevejo cada gesto e vez por outra também as palavras,
porquê é você, e não tem dor, e não tem medo, eu e você, sempre foi eu e você,
qual é a novidade afinal?
a novidade é o estômago que se assusta com o eu-te-amo, antes o eu-te-amo batia direto no peito, hoje o eu-te-amo começa a arder entre as pernas e passa pelo meio do corpo antes de virar fagulha no coração.
antes eu segurava sua mão na minha porque sim, porque é fácil e porque dividir a vida contigo sempre foi o certo e o óbvio, eu e você, eu e você.
porque sua casa é meu lugar no mundo, porque amo sua mãe e seu colchão, e eu durmo abraçada na sua cadela, mas faz calor, e a gente bebe água da garrafa azul e tomamos nossos poucos banhos com a mesma toalha imunda. de vez em quando eu uso a toalha da sua irmã, mas não adianta muita coisa porque a gente sempre acaba deitando em cima de alguma cinza de cigarro, ou você vêm e pega no meu cabelo com a mão suja de alho.
mas agora eu pego na sua mão porque eu quero perguntar uma coisa,
que tá aqui apertando minha garganta, eu quero dizer que eu sei que você não vai embora, porque como que alguém pode ir embora, somos eu e você, eu e você, como sempre, não tem medo, não tem dor, eu conheço você como eu me conheço, como eu sei que os dias passam devagar quando estamos juntos, como eu sei que vou acordar de manhã e você nunca vai esquecer de me deixar um último cigarro. como sempre foi. como sempre vai ser.
mas de vez em quando
como agora
você tá dormindo e eu tô aqui sentada, e isso é mais separação do que eu posso aguentar, e foi tão difícil achar essa caneta nessa bagunça, mas você sabe que de vez em quando eu só queria que você me prometesse,
- acordasse, abrisse o olho e me prometesse que não vai mesmo embora nunca.
...
de vez em quando eu bebo café frio, é a preguiça, você sabe.
mas seu olhar é sempre quente.
eu prevejo cada gesto e vez por outra também as palavras,
porquê é você, e não tem dor, e não tem medo, eu e você, sempre foi eu e você,
qual é a novidade afinal?
a novidade é o estômago que se assusta com o eu-te-amo, antes o eu-te-amo batia direto no peito, hoje o eu-te-amo começa a arder entre as pernas e passa pelo meio do corpo antes de virar fagulha no coração.
antes eu segurava sua mão na minha porque sim, porque é fácil e porque dividir a vida contigo sempre foi o certo e o óbvio, eu e você, eu e você.
porque sua casa é meu lugar no mundo, porque amo sua mãe e seu colchão, e eu durmo abraçada na sua cadela, mas faz calor, e a gente bebe água da garrafa azul e tomamos nossos poucos banhos com a mesma toalha imunda. de vez em quando eu uso a toalha da sua irmã, mas não adianta muita coisa porque a gente sempre acaba deitando em cima de alguma cinza de cigarro, ou você vêm e pega no meu cabelo com a mão suja de alho.
mas agora eu pego na sua mão porque eu quero perguntar uma coisa,
que tá aqui apertando minha garganta, eu quero dizer que eu sei que você não vai embora, porque como que alguém pode ir embora, somos eu e você, eu e você, como sempre, não tem medo, não tem dor, eu conheço você como eu me conheço, como eu sei que os dias passam devagar quando estamos juntos, como eu sei que vou acordar de manhã e você nunca vai esquecer de me deixar um último cigarro. como sempre foi. como sempre vai ser.
mas de vez em quando
como agora
você tá dormindo e eu tô aqui sentada, e isso é mais separação do que eu posso aguentar, e foi tão difícil achar essa caneta nessa bagunça, mas você sabe que de vez em quando eu só queria que você me prometesse,
- acordasse, abrisse o olho e me prometesse que não vai mesmo embora nunca.
...
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Nina.
mais trens.
...
são só palavras vazias escritas num cartão
grandes palavras
imensas palavras
usamos o tudo e o nada e o infinito e o eterno e o amor
e o coração e a alma e a vida
e o tempo e o sempre e o tanto
e o nunca
e o nunca antes
e o nunca mais
daí vêm o trem de domingo
sempre vêm o trem de domingo
que nos sufoca com a fumaça negra do depois,
da partida
da tarde fria do adeus,
até logo
veja bem
não era bem isso que
aí o arrependimento
aí o deixa pra lá
era só mais um desses casos que
era só mais um desses casos e sobram as palavras vazias escritas num cartão.
...
são só palavras vazias escritas num cartão
grandes palavras
imensas palavras
usamos o tudo e o nada e o infinito e o eterno e o amor
e o coração e a alma e a vida
e o tempo e o sempre e o tanto
e o nunca
e o nunca antes
e o nunca mais
daí vêm o trem de domingo
sempre vêm o trem de domingo
que nos sufoca com a fumaça negra do depois,
da partida
da tarde fria do adeus,
até logo
veja bem
não era bem isso que
aí o arrependimento
aí o deixa pra lá
era só mais um desses casos que
era só mais um desses casos e sobram as palavras vazias escritas num cartão.
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Nina.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
on the road
...
que jeito estúpido de fazer café
que jeito estúpido de viver a vida
são só paredes pintadas
são só recortes de revistas
é só um gato temperamental
dois amigos que abrem a casa,
- eles trabalham demais
bebem menos do que mereciam
e mais do que deveriam.
é um paraíso
com muito frio e muito lixo.
que jeito estúpido de viajar
que jeito estúpido de se apaixonar
são só paredes pintadas
com frases de efeito que tiramos de livros
o amor é sexualmente transmissível
(candidíase também)
são só uns dias foras de casa
perder um instante
ou um isqueiro
receber reclamações do síndico
ninguém gosta de fumaça e barulho.
somos feitos de fumaça e barulho
pelo menos essa noite
pelo menos esse mês.
dormir ao invés de sair
as cidades são todas iguais
(as pessoas também)
que jeito estúpido de se machucar
que jeito estúpido de descobrir
andar
andar
andar
e vir parar logo aqui:
em você.
...
que jeito estúpido de fazer café
que jeito estúpido de viver a vida
são só paredes pintadas
são só recortes de revistas
é só um gato temperamental
dois amigos que abrem a casa,
- eles trabalham demais
bebem menos do que mereciam
e mais do que deveriam.
é um paraíso
com muito frio e muito lixo.
que jeito estúpido de viajar
que jeito estúpido de se apaixonar
são só paredes pintadas
com frases de efeito que tiramos de livros
o amor é sexualmente transmissível
(candidíase também)
são só uns dias foras de casa
perder um instante
ou um isqueiro
receber reclamações do síndico
ninguém gosta de fumaça e barulho.
somos feitos de fumaça e barulho
pelo menos essa noite
pelo menos esse mês.
dormir ao invés de sair
as cidades são todas iguais
(as pessoas também)
que jeito estúpido de se machucar
que jeito estúpido de descobrir
andar
andar
andar
e vir parar logo aqui:
em você.
...
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quarta-feira, 8 de julho de 2009
exercício:
...
o nome disso é coragem
o que me ferve o nervo
só de passagem
aproveito o ensejo
dignifico a necessidade
em alto relevo
não renegarei a insanidade
das carícias e do beijo
se me apego a libertinagem
não é por falta de sossego
o que me falta é a capacidade
de morrer com esse segredo
me dá imunidade
que eu vivo do teu desejo
as luzes fracas da cidade
não escondem o que eu prevejo
a louca perversidade
guardada nesse nosso festejo
quanto pior a precariedade
mais bonito eu te vejo
esqueceremos a tempestade
viveremos sem brinquedo
ou a sombra da maturidade
nunca passará por esse vilarejo.
.
o nome disso é coragem
o que me ferve o nervo
só de passagem
aproveito o ensejo
dignifico a necessidade
em alto relevo
não renegarei a insanidade
das carícias e do beijo
se me apego a libertinagem
não é por falta de sossego
o que me falta é a capacidade
de morrer com esse segredo
me dá imunidade
que eu vivo do teu desejo
as luzes fracas da cidade
não escondem o que eu prevejo
a louca perversidade
guardada nesse nosso festejo
quanto pior a precariedade
mais bonito eu te vejo
esqueceremos a tempestade
viveremos sem brinquedo
ou a sombra da maturidade
nunca passará por esse vilarejo.
.
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quinta-feira, 2 de julho de 2009
atrasada:
acordei hoje querendo dizer:
não, eu nem estava encantada por você.
se teu ego tivesse deixado,
teríamos sido amigos,
teríamos trepado,
teríamos nos divertido.
e eu até teria te dito
que nem te acho assim tão bonito.
teríamos rido,
teríamos aproveitado.
se teu ego tivesse deixado,
poderíamos até ter nos apaixonado.
mas sabe como é
esse lance de egos desacerbados
e garotas
que nunca perdem velhos hábitos.
o meu principal é fazer poesia ruim
depois de um homem pior ainda.
____________
não, eu nem estava encantada por você.
se teu ego tivesse deixado,
teríamos sido amigos,
teríamos trepado,
teríamos nos divertido.
e eu até teria te dito
que nem te acho assim tão bonito.
teríamos rido,
teríamos aproveitado.
se teu ego tivesse deixado,
poderíamos até ter nos apaixonado.
mas sabe como é
esse lance de egos desacerbados
e garotas
que nunca perdem velhos hábitos.
o meu principal é fazer poesia ruim
depois de um homem pior ainda.
____________
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terça-feira, 30 de junho de 2009
waking life
...
sonhei que te levava aos lugares da minha infância,
passeávamos por entre as velas e a solenidade marrom do castelo
(ou ao menos parecia um castelo para meus olhos de criança).
você sempre rindo, e eu sempre brincando de fingir-não-me-importar,
no meu sonho a culpa vinha sorrateira e nos engolia,
eu te levava aos lugares proibidos da minha infância,
o olhar da Madre Superiora me alcançava,
eu brincando de fingir-não-me-importar, você rindo,
e teu riso ecoava por toda a capela e nos denunciava.
mas era um riso tão inocente, apesar de tudo.
acordei e fiz bem em lembrar
que abolimos o peso da lista de palavras que se devem usar.
acordei e fazia calor, e você abriu a porta,
e tua presença me despertou, e o teu riso igual ao do sonho,
"-não solte minha mão", eu pedi no escuro da solenidade marrom,
não solte minha mão, porque logo logo o olhar da Madre Superiora vai me encontrar,
logo logo o peso do mundo vai me sufocar,
e mesmo sabendo que é tua culpa, que é você que ri alto demais,
no escuro é tua mão que tento alcançar.
mas acordei sozinha,
e fazia calor,
e fiz bem em lembrar
que não preciso da tua mão na minha.
.
sonhei que te levava aos lugares da minha infância,
passeávamos por entre as velas e a solenidade marrom do castelo
(ou ao menos parecia um castelo para meus olhos de criança).
você sempre rindo, e eu sempre brincando de fingir-não-me-importar,
no meu sonho a culpa vinha sorrateira e nos engolia,
eu te levava aos lugares proibidos da minha infância,
o olhar da Madre Superiora me alcançava,
eu brincando de fingir-não-me-importar, você rindo,
e teu riso ecoava por toda a capela e nos denunciava.
mas era um riso tão inocente, apesar de tudo.
acordei e fiz bem em lembrar
que abolimos o peso da lista de palavras que se devem usar.
acordei e fazia calor, e você abriu a porta,
e tua presença me despertou, e o teu riso igual ao do sonho,
"-não solte minha mão", eu pedi no escuro da solenidade marrom,
não solte minha mão, porque logo logo o olhar da Madre Superiora vai me encontrar,
logo logo o peso do mundo vai me sufocar,
e mesmo sabendo que é tua culpa, que é você que ri alto demais,
no escuro é tua mão que tento alcançar.
mas acordei sozinha,
e fazia calor,
e fiz bem em lembrar
que não preciso da tua mão na minha.
.
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Nina.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
os trens de domingo.
...
eu não queria dizer adeus ainda, mas o trem partiu sem permissão,
eu nunca aprendi direito a lidar com todos esses botões,
você aperta o errado numa noite fria, porque você sabe,
o frio realmente faz tremer as mãos,
e saí por aí dizendo euteamo, preciso que você mude minha vida,
me salve, entre e me salve, fique e me salve.
aí você acorda, e que puta ressaca, e que inverno fodido,
você percebe que passou do ponto, que perdeu a linha,
que ninguém vai te ligar aos domingos.
domingo é o dia dos arrependimentos,
uma vez comecei uma poesia com "me arrependerei aos domingos",
mas você sabe que não sou muito boa com isso de poesia,
eu nunca aprendi direito a lidar com todas essas emoções.
mas olha só que papelão, nem chegou domingo e já estou arrependida,
a vida é uma estação fodida,
nem quero ficar pra ver onde esse trem vai parar da próxima vez.
..
eu não queria dizer adeus ainda, mas o trem partiu sem permissão,
eu nunca aprendi direito a lidar com todos esses botões,
você aperta o errado numa noite fria, porque você sabe,
o frio realmente faz tremer as mãos,
e saí por aí dizendo euteamo, preciso que você mude minha vida,
me salve, entre e me salve, fique e me salve.
aí você acorda, e que puta ressaca, e que inverno fodido,
você percebe que passou do ponto, que perdeu a linha,
que ninguém vai te ligar aos domingos.
domingo é o dia dos arrependimentos,
uma vez comecei uma poesia com "me arrependerei aos domingos",
mas você sabe que não sou muito boa com isso de poesia,
eu nunca aprendi direito a lidar com todas essas emoções.
mas olha só que papelão, nem chegou domingo e já estou arrependida,
a vida é uma estação fodida,
nem quero ficar pra ver onde esse trem vai parar da próxima vez.
..
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Nina.
sábado, 30 de maio de 2009
sexta-feira, 29 de maio de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
VI
...
a manhã me acha acordada de novo.
tenho essa mania triste de não deixar os dias passarem,
tenho essa ridícula esperança
de que o espaço entre meus dedos seja pequeno o suficiente
para não deixar muita areia escapar.
da janela me alcança o amanhecer,
o tempo chuvoso empresta ao momento a solenidade
que a vida esquece de ter.
olhando daqui o mar onipresente
e as nuvens carregadas de promessas
me sinto confortável em nada ser.
e é só isso que tenho a declarar.
meu prefácio para a vida que começa
mais parece um epitáfio da vida que não será:
nada quero,
nada creio,
nada faço
e nada desejo.
ser já é fardo suficiente.
saber que o espaço entre os dedos
jamais será pequeno o suficiente.
e os dias jamais serão eternos
por mais que eu mantenha
os olhos abertos.
a manhã me acha acordada de novo.
tenho essa mania triste de não deixar os dias passarem,
tenho essa ridícula esperança
de que o espaço entre meus dedos seja pequeno o suficiente
para não deixar muita areia escapar.
da janela me alcança o amanhecer,
o tempo chuvoso empresta ao momento a solenidade
que a vida esquece de ter.
olhando daqui o mar onipresente
e as nuvens carregadas de promessas
me sinto confortável em nada ser.
e é só isso que tenho a declarar.
meu prefácio para a vida que começa
mais parece um epitáfio da vida que não será:
nada quero,
nada creio,
nada faço
e nada desejo.
ser já é fardo suficiente.
saber que o espaço entre os dedos
jamais será pequeno o suficiente.
e os dias jamais serão eternos
por mais que eu mantenha
os olhos abertos.
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Nina.
V
.
o que importam
minhas desproporções
os desejos e as ilusões
de que matéria são feitas as perguntas ?
de que importam
as perguntas
e as múltiplas respostas
perdidas no tempo ?
perguntas e respostas
são como vento
posso sentí-las
por um momento
- ou dois
mas não posso segurá-las
com minhas mãos
humanas e falhas
(porém as únicas que possuo,
e por elas sou grata)
de que importam
as mãos, as falhas e a gratidão
me pergunto
enquanto meus olhos
- também humanos e falhos
tentam abarcar o mar
tentam descobrir onde ele termina,
se é que termina,
apesar da desimportância da pergunta,
apesar da miopia.
___
o que importam
minhas desproporções
os desejos e as ilusões
de que matéria são feitas as perguntas ?
de que importam
as perguntas
e as múltiplas respostas
perdidas no tempo ?
perguntas e respostas
são como vento
posso sentí-las
por um momento
- ou dois
mas não posso segurá-las
com minhas mãos
humanas e falhas
(porém as únicas que possuo,
e por elas sou grata)
de que importam
as mãos, as falhas e a gratidão
me pergunto
enquanto meus olhos
- também humanos e falhos
tentam abarcar o mar
tentam descobrir onde ele termina,
se é que termina,
apesar da desimportância da pergunta,
apesar da miopia.
___
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Nina.
sábado, 23 de maio de 2009
.
lembro das mãos dadas -
o arrepio
o desconforto.
não sei o que eu mais temia:
você não (me) querer
ou
você (me) querer
tanto quanto
eu (te) queria.
_______________________
deitei no teu ombro
pra marcar território
mas a noite virou dia
e (quem diria)
quem acordou marcada
fui eu.
_______________________
a meia,
a maquiagem,
o meio-sorriso,
a sacanagem
é
tudo
pra
você
perceber.
baby
porque você não troca
o olhar de reprovação
por um pouquinho
de ação?
____________________
lembro das mãos dadas -
o arrepio
o desconforto.
não sei o que eu mais temia:
você não (me) querer
ou
você (me) querer
tanto quanto
eu (te) queria.
_______________________
deitei no teu ombro
pra marcar território
mas a noite virou dia
e (quem diria)
quem acordou marcada
fui eu.
_______________________
a meia,
a maquiagem,
o meio-sorriso,
a sacanagem
é
tudo
pra
você
perceber.
baby
porque você não troca
o olhar de reprovação
por um pouquinho
de ação?
____________________
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Nina.
IV
dentro de mim é névoa
escura, úmida, densa e cega
dentro de mim é nada
cinza pesado negro mistério
fora de mim é o mundo
dentro de mim universo
no vazio enxergo
tateando meus invernos partidos no chão
dentro de mim é chão
sem nenhum teto
dentro de mim é chuva
não alaga nem cessa
dentro de mim é gotejar sem fim
dentro de mim é tortura
milenar e eficaz
dentro de mim
não sou capaz
de ser
senão névoa
escura, úmida, densa e cega.
escura, úmida, densa e cega
dentro de mim é nada
cinza pesado negro mistério
fora de mim é o mundo
dentro de mim universo
no vazio enxergo
tateando meus invernos partidos no chão
dentro de mim é chão
sem nenhum teto
dentro de mim é chuva
não alaga nem cessa
dentro de mim é gotejar sem fim
dentro de mim é tortura
milenar e eficaz
dentro de mim
não sou capaz
de ser
senão névoa
escura, úmida, densa e cega.
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Nina.
III
é fácil me perder
ter você pra me achar
as esquinas não guardam meus segredos
minha alma
só eu sei onde está
você tenta me decifrar
eu te amo pela sua paciência
desprovida
de qualquer inteligência
e cheia de medo de errar
olha só,
preciso te contar
não sou estrada
sou beco
fim de linha
fim-de-noite
sou o fim da festa
cinzas em garrafas vazias
nem um pouco
boa companhia.
mas se quiser entrar mesmo assim
guardo a chave no fundo da carne.
é fácil me perder
e ter você pra me achar
...
ter você pra me achar
as esquinas não guardam meus segredos
minha alma
só eu sei onde está
você tenta me decifrar
eu te amo pela sua paciência
desprovida
de qualquer inteligência
e cheia de medo de errar
olha só,
preciso te contar
não sou estrada
sou beco
fim de linha
fim-de-noite
sou o fim da festa
cinzas em garrafas vazias
nem um pouco
boa companhia.
mas se quiser entrar mesmo assim
guardo a chave no fundo da carne.
é fácil me perder
e ter você pra me achar
...
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Nina.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
I
.
serei grande, serei tudo.
mas espera, não agora.
pensarei grande, pensarei em tudo -
mas por hora,
me deixa ficar assim,
por aqui,
rir um pouco.
tudo bem.
terei grandes coisas. terei tudo.
mas é que nesse instante, delicado instante,
tenho tudo que quero.
e o querer não é assim de ser mandado.
quero teus braços, nossos enlaces,
meus livros roubados,
coçar meu bicho-do-pé, - lembra nossa praia.
serei grande, serei tudo.
mas olha que o meu tudo nem é tão grande assim:
cabe na minha mão em concha,
cabe no meu fechar-de-olhos,
cabe no pousar-meu-corpo-no-teu.
serei grande, serei tudo.
mas espera, não agora.
pensarei grande, pensarei em tudo -
mas por hora,
me deixa ficar assim,
por aqui,
rir um pouco.
tudo bem.
terei grandes coisas. terei tudo.
mas é que nesse instante, delicado instante,
tenho tudo que quero.
e o querer não é assim de ser mandado.
quero teus braços, nossos enlaces,
meus livros roubados,
coçar meu bicho-do-pé, - lembra nossa praia.
serei grande, serei tudo.
mas olha que o meu tudo nem é tão grande assim:
cabe na minha mão em concha,
cabe no meu fechar-de-olhos,
cabe no pousar-meu-corpo-no-teu.
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Nina.
sábado, 26 de abril de 2008
sobre anões e periquitos.
naquela época, todos os dias depois das cinco, deixava minha bicicleta de qualquer jeito no jardim e subia para espiar, esperançoso, se Vovô tinha morrido.
e descia cabisbaixo.
sussurrava para Marvin, o periquito:
- não, amigo, não foi dessa vez.
não me entendam mal; antes, eu realmente gostava de cuidar do Vovô. mamãe e papai eram muito ocupados, e eu voluntariamente declinei de todas as possíveis tardes de diversões infantis para ficar com um velho doente e um periquito chamado Marvin. e tenho só as melhores lembranças:
Vovô era legal quando decidia falar. ele perguntava se eu sou Ernie, o anão. eu dizia que sim, ao invés de explicar que não, que eu era apenas seu neto de 11 anos e o único na família com senso de dever e piedade.
mamãe dizia que o Vovô serviu o exército, e conta que conheceu lá um anão chamado Ernie, mas que isso é mentira. papai dizia que anões não podem ir pro exército. não que papai tivesse tempo de me dizer alguma coisa interessante entre seus plantões. ele é pediatra e cuidava de todas as crianças, menos de mim, seu filho. eu era criança e cuidava de um velho e de um periquito chamado Marvin.
as vezes Ruth ia limpar a casa, ela era legal e me contava histórias de quando mamãe era novinha e corria pela casa ao invés de ir na ginástica. Ruth dizia que mamãe não gostava de bonecas e catava formigas no quintal pra fazer luta de insetos. um dia eu cheguei em casa com três das bundudas e um besouro pra desafiar mamãe, mas ela gritou, jogou todos pela janela e me mandou tomar banho. os adultos crescem e ficam idiotas.
Vovô falava comigo pensando que sou Ernie, o anão. era divertido. ele levantava da cadeira de rodas e brincava de matar alemães comigo pela casa toda. a vassoura era o rifle dele, e eu ficava com as almofadas pra usar de granadas. depois tomávamos suco de uva - eu fingia que era vinho - e comemorávamos nossa vitória. eu e Vovô sempre ganhávamos dos alemães. ele ficava feliz e dizia:
- muito bem, Ernie! acabamos com eles dessa vez.
só eu sabia que o Vovô conseguia andar e conversar. eu tentei contar, mas a mamãe estava ocupada fazendo exercícios com um vídeo de uma mulher que tinha o peito tão grande que eu achei que ia explodir e ela ia sair voando, e o papai disse:
- talvez seja melhor esse menino não passar tanto tempo com o velho. isso não vai fazer bem! quando o moleque tiver um surto porque o avô morreu, não diga que eu não avisei!
papai sempre falava gritando.
por sorte minha, papai e mamãe sempre esqueciam de mim depois de umas horas. e eu decidi nunca mais falar do Vovô pra eles.
só Ruth sabia das nossas aventuras. ela fazia nosso suco de uva da vitória e eu acho que o perfume dela que fazia o Vovô levantar.
uma vez perguntei pra Ruth porque ela é diferente da gente.
- diferente como, meu amorzinho?
- diferente, assim, marrom.
e Ruth me contou uma história bonita sobre o povo dela que veio de um lugar chamado áfrica.
perguntei se era por isso que a mamãe chamava ela daqueles nomes feios.
ela disse que não.
- é porque eu namorei seu avô quando sua avó era viva ainda.
- mas só se pode amar uma pessoa de cada vez?
o mundo dos adultos é injusto.
decidi que quando crescesse casaria com Ruth, assim ela seria a namorada principal e ninguém mais chamaria ela de nomes feios.
outro dia perguntei pro papai o que é ter um surto.
- onde você aprendeu isso, menino?
- você disse que quando o Vovô morrer, eu vou ter um surto.
- ah... é. bom... surto é quando uma pessoa fica... diferente. isso. fica diferente e tem que ir pra um lugar longe da família, um lugar bem bonito e com jardim, e fica lá descansando com outras pessoas diferentes. não é coisa de criança, criança não tem isso, aquele dia eu estava brincando. agora vai pra escola.
coitado do meu pai. alguém deu pra ele uma explicação muito idiota sobre as pessoas loucas e hospícios, e ele acreditou.
eu vi no jornal uma notícia de um homem velho que tinha se suicidado.
- Ruth, o que é se suicidar?
- é quando a gente decide a nossa hora de ir embora. mas dizem que Deus não gosta quando fazem isso.
- eu acho que Deus nem liga, Ruth.
nesse dia eu chorei no colo do Vovô. percebi que só eu e Ruth nos importaríamos se ele fosse embora. mas isso foi antes do câncer.
Vovô perguntou:
- porque está chorando, Ernie?
eu dei risadas e voltamos pra nossa guerra contra os alemães infinitos.
não tinha sangue na nossa guerra. éramos só crianças.
o médico ia examinar Vovô de seis em seis meses. ele dizia que Vovô estava saudável e me dava uma bala de canela. ele dizia pra Ruth:
- você é uma ótima enfermeira. continue com os banhos e as compressas, a alimentação está corretíssima. cadê a filha dele?
- o senhor sabe que ela não vem aqui quando eu estou, doutor.
- pois então o pai passa melhor sem ela.
eu chupava satisfeito minha bala de canela.
a parte ruim começou no dia em que Vovô gritou de dor. eu subi correndo, a tempo de ver Vovô levantar da cadeira de rodas e ir cambaleando até o espelho. quando me viu, parou de gritar.
ele me olhou, ou olhou um Ernie do seu passado, e nunca vou esquecer do que ele disse:
- não me digam, bostinhas, que realmente se importam comigo. um homem jamais viu a si mesmo sem ajuda de espelhos.
nesse dia o médico veio e disse que Vovô tinha câncer no pulmão. e que era tarde demais pra qualquer coisa. e que ele ia morrer.
perguntei porque ele não tinha visto o câncer antes. ele disse que o Vovô era tão esperto que escondeu o câncer de todo mundo.
não ganhei bala de canela esse dia. chutei o doutor e disse palavras feias que o Vovô me ensinou pra dizer pros alemães.
depois que começou o tratamento, Vovô não levantou mais. ficava na cama o dia todo, preso naquelas máquinas. papai gastou todas as economias pra minha faculdade no tratamento do Vovô. ele não queria, mas mamãe chorou por dias trancada no quarto. e afinal, o dinheiro era meu. acho que foi isso que terminou de vez com o casamento deles, mas isso foi depois.
o Vovô ganhou uma enfermeira chata e mamãe mandou Ruth embora de vez. depois da escola, eu passava com a bicicleta assobiando perto da casinha dela, e íamos juntos espiar do jardim. quando dava a hora, a enfermeira ia embora e nós podíamos ver ele.
Ruth sempre chorava.
- logo você, meu velho, acabar assim? todo preso nessa cama?
pra mais ninguém fazia diferença, porque só eu e Ruth sabíamos que o Vovô podia andar, brincar e conversar.
foi aí que eu comecei a querer que o Vovô morresse. o médico disse que o tratamento só ia piorar.
o Vovô já não conseguia ir no banheiro sozinho e nem se alimentar. o Vovô não ria mais. eu sentia falta da gargalhada dele.
Marvin, o periquito, morreu. eu levei o cadaverzinho de Marvin pro Vovô se despedir. a morte é bonita e estranha. não fiquei triste porque sabia que Marvin ia pro céu dos bons periquitos. e se isso não existisse, Deus ia providenciar um só pra ele, porque Marvin realmente era um bom periquito.
mas me deu vontade de chorar mesmo assim.
fiquei horas lá, segurando o Marvin frio e duro, vendo a baba escorrer da boca do Vovô.
quando Ruth estava quase me obrigando a ir embora, o Vovô abriu os olhos e disse:
- temos um ferido de guerra?
eu levei Marvin até ele, e o Vovô me olhou bem fundo e bem demorado.
- meu filho. eu consegui me ver sem a ajuda de espelhos. você foi meu espelho.
- Vovô, você tá bem?
- tenho que ir embora. mas que bela batalha lutamos aqui, Ernie.
por um segundo achei que Vovô sabia que eu era seu neto. mas eu nunca me importei de ser Ernie.
Ruth ouviu tudo que Vovô me disse. antes de mergulhar no torpor de vez, ele olhou pra ela e disse:
- meu querido anjo.
choramos juntos até de madrugada.
papai foi me buscar furioso. contei pra ele o que o Vovô me disse, mas papai se limitou a colocar minha bicicleta no porta malas e ser grosseiro com Ruth.
disse pro papai que Vovô já estava pronto pra ir embora.
ele disse:
- depois daí, ele não vai mais pra lugar algum.
até hoje não sei porque papai sempre foi tão burro.
pouco depois desse dia, a enfermeira chegou de manhã cedo e encontrou Vovô morto no meio da sala, com um tiro na cabeça. os policiais foram incisivos na versão de suicídio, e a perícia confirmou. fiquei feliz, porque isso provava de uma vez por todas que o Vovô podia sim andar e fazer coisas sozinho, como se suicidar com um tiro na cabeça. meus pais ouviram isso dos policiais perplexos:
- nunca poderíamos imaginar!
- que mentira! - gritei. - eu digo isso pra vocês há anos!
mas os policiais também não ouvem crianças.
o revólver que Vovô usou era uma relíquia da segunda guerra. eu sabia que a Ruth guardava ele na casa dela, era presente. mas não disse nada.
também não disse nada quando Ruth mentiu pros policiais:
- não, não estive aqui ontem.
eu sabia - e ela sabia que eu sabia - que o Vovô jamais se levantaria sozinho sem o perfume dela pela casa.
eu sempre soube que Vovô amou nós dois mais do que tudo. entrei na bienal de artes da escola porque sabia que o Vovô era o único que entendia e gostava dos meus desenhos.
ele dizia:
- que bom que a guerra não afetou sua arte, Ernie.
na verdade, paguei minha faculdade com dinheiro de ilustrações vendidas.
não vejo papai há cinco anos. casou de novo e eu tenho três irmãos que nunca conheci.
mamãe continua amargurada e sozinha, remoendo rancor da vida. como sempre esteve, aliás.
eu visito Ruth todas as vezes que venho à cidade. a velhice lhe caiu bem.
caminhamos juntos, e vamos visitar o túmulo de Vovô.
fizemos uma mini-lápide clandestina ao lado, pra Marvin.
numa dessas visitas, avistamos um anão velhinho colocando flores no túmulo do Vovô. nos escondemos até ele ir embora.
não perguntamos se seu nome era Ernie. se fosse, aí sim teríamos um surto.
ainda tento não deixar a guerra afetar minha arte.
_______________________________
e descia cabisbaixo.
sussurrava para Marvin, o periquito:
- não, amigo, não foi dessa vez.
não me entendam mal; antes, eu realmente gostava de cuidar do Vovô. mamãe e papai eram muito ocupados, e eu voluntariamente declinei de todas as possíveis tardes de diversões infantis para ficar com um velho doente e um periquito chamado Marvin. e tenho só as melhores lembranças:
Vovô era legal quando decidia falar. ele perguntava se eu sou Ernie, o anão. eu dizia que sim, ao invés de explicar que não, que eu era apenas seu neto de 11 anos e o único na família com senso de dever e piedade.
mamãe dizia que o Vovô serviu o exército, e conta que conheceu lá um anão chamado Ernie, mas que isso é mentira. papai dizia que anões não podem ir pro exército. não que papai tivesse tempo de me dizer alguma coisa interessante entre seus plantões. ele é pediatra e cuidava de todas as crianças, menos de mim, seu filho. eu era criança e cuidava de um velho e de um periquito chamado Marvin.
as vezes Ruth ia limpar a casa, ela era legal e me contava histórias de quando mamãe era novinha e corria pela casa ao invés de ir na ginástica. Ruth dizia que mamãe não gostava de bonecas e catava formigas no quintal pra fazer luta de insetos. um dia eu cheguei em casa com três das bundudas e um besouro pra desafiar mamãe, mas ela gritou, jogou todos pela janela e me mandou tomar banho. os adultos crescem e ficam idiotas.
Vovô falava comigo pensando que sou Ernie, o anão. era divertido. ele levantava da cadeira de rodas e brincava de matar alemães comigo pela casa toda. a vassoura era o rifle dele, e eu ficava com as almofadas pra usar de granadas. depois tomávamos suco de uva - eu fingia que era vinho - e comemorávamos nossa vitória. eu e Vovô sempre ganhávamos dos alemães. ele ficava feliz e dizia:
- muito bem, Ernie! acabamos com eles dessa vez.
só eu sabia que o Vovô conseguia andar e conversar. eu tentei contar, mas a mamãe estava ocupada fazendo exercícios com um vídeo de uma mulher que tinha o peito tão grande que eu achei que ia explodir e ela ia sair voando, e o papai disse:
- talvez seja melhor esse menino não passar tanto tempo com o velho. isso não vai fazer bem! quando o moleque tiver um surto porque o avô morreu, não diga que eu não avisei!
papai sempre falava gritando.
por sorte minha, papai e mamãe sempre esqueciam de mim depois de umas horas. e eu decidi nunca mais falar do Vovô pra eles.
só Ruth sabia das nossas aventuras. ela fazia nosso suco de uva da vitória e eu acho que o perfume dela que fazia o Vovô levantar.
uma vez perguntei pra Ruth porque ela é diferente da gente.
- diferente como, meu amorzinho?
- diferente, assim, marrom.
e Ruth me contou uma história bonita sobre o povo dela que veio de um lugar chamado áfrica.
perguntei se era por isso que a mamãe chamava ela daqueles nomes feios.
ela disse que não.
- é porque eu namorei seu avô quando sua avó era viva ainda.
- mas só se pode amar uma pessoa de cada vez?
o mundo dos adultos é injusto.
decidi que quando crescesse casaria com Ruth, assim ela seria a namorada principal e ninguém mais chamaria ela de nomes feios.
outro dia perguntei pro papai o que é ter um surto.
- onde você aprendeu isso, menino?
- você disse que quando o Vovô morrer, eu vou ter um surto.
- ah... é. bom... surto é quando uma pessoa fica... diferente. isso. fica diferente e tem que ir pra um lugar longe da família, um lugar bem bonito e com jardim, e fica lá descansando com outras pessoas diferentes. não é coisa de criança, criança não tem isso, aquele dia eu estava brincando. agora vai pra escola.
coitado do meu pai. alguém deu pra ele uma explicação muito idiota sobre as pessoas loucas e hospícios, e ele acreditou.
eu vi no jornal uma notícia de um homem velho que tinha se suicidado.
- Ruth, o que é se suicidar?
- é quando a gente decide a nossa hora de ir embora. mas dizem que Deus não gosta quando fazem isso.
- eu acho que Deus nem liga, Ruth.
nesse dia eu chorei no colo do Vovô. percebi que só eu e Ruth nos importaríamos se ele fosse embora. mas isso foi antes do câncer.
Vovô perguntou:
- porque está chorando, Ernie?
eu dei risadas e voltamos pra nossa guerra contra os alemães infinitos.
não tinha sangue na nossa guerra. éramos só crianças.
o médico ia examinar Vovô de seis em seis meses. ele dizia que Vovô estava saudável e me dava uma bala de canela. ele dizia pra Ruth:
- você é uma ótima enfermeira. continue com os banhos e as compressas, a alimentação está corretíssima. cadê a filha dele?
- o senhor sabe que ela não vem aqui quando eu estou, doutor.
- pois então o pai passa melhor sem ela.
eu chupava satisfeito minha bala de canela.
a parte ruim começou no dia em que Vovô gritou de dor. eu subi correndo, a tempo de ver Vovô levantar da cadeira de rodas e ir cambaleando até o espelho. quando me viu, parou de gritar.
ele me olhou, ou olhou um Ernie do seu passado, e nunca vou esquecer do que ele disse:
- não me digam, bostinhas, que realmente se importam comigo. um homem jamais viu a si mesmo sem ajuda de espelhos.
nesse dia o médico veio e disse que Vovô tinha câncer no pulmão. e que era tarde demais pra qualquer coisa. e que ele ia morrer.
perguntei porque ele não tinha visto o câncer antes. ele disse que o Vovô era tão esperto que escondeu o câncer de todo mundo.
não ganhei bala de canela esse dia. chutei o doutor e disse palavras feias que o Vovô me ensinou pra dizer pros alemães.
depois que começou o tratamento, Vovô não levantou mais. ficava na cama o dia todo, preso naquelas máquinas. papai gastou todas as economias pra minha faculdade no tratamento do Vovô. ele não queria, mas mamãe chorou por dias trancada no quarto. e afinal, o dinheiro era meu. acho que foi isso que terminou de vez com o casamento deles, mas isso foi depois.
o Vovô ganhou uma enfermeira chata e mamãe mandou Ruth embora de vez. depois da escola, eu passava com a bicicleta assobiando perto da casinha dela, e íamos juntos espiar do jardim. quando dava a hora, a enfermeira ia embora e nós podíamos ver ele.
Ruth sempre chorava.
- logo você, meu velho, acabar assim? todo preso nessa cama?
pra mais ninguém fazia diferença, porque só eu e Ruth sabíamos que o Vovô podia andar, brincar e conversar.
foi aí que eu comecei a querer que o Vovô morresse. o médico disse que o tratamento só ia piorar.
o Vovô já não conseguia ir no banheiro sozinho e nem se alimentar. o Vovô não ria mais. eu sentia falta da gargalhada dele.
Marvin, o periquito, morreu. eu levei o cadaverzinho de Marvin pro Vovô se despedir. a morte é bonita e estranha. não fiquei triste porque sabia que Marvin ia pro céu dos bons periquitos. e se isso não existisse, Deus ia providenciar um só pra ele, porque Marvin realmente era um bom periquito.
mas me deu vontade de chorar mesmo assim.
fiquei horas lá, segurando o Marvin frio e duro, vendo a baba escorrer da boca do Vovô.
quando Ruth estava quase me obrigando a ir embora, o Vovô abriu os olhos e disse:
- temos um ferido de guerra?
eu levei Marvin até ele, e o Vovô me olhou bem fundo e bem demorado.
- meu filho. eu consegui me ver sem a ajuda de espelhos. você foi meu espelho.
- Vovô, você tá bem?
- tenho que ir embora. mas que bela batalha lutamos aqui, Ernie.
por um segundo achei que Vovô sabia que eu era seu neto. mas eu nunca me importei de ser Ernie.
Ruth ouviu tudo que Vovô me disse. antes de mergulhar no torpor de vez, ele olhou pra ela e disse:
- meu querido anjo.
choramos juntos até de madrugada.
papai foi me buscar furioso. contei pra ele o que o Vovô me disse, mas papai se limitou a colocar minha bicicleta no porta malas e ser grosseiro com Ruth.
disse pro papai que Vovô já estava pronto pra ir embora.
ele disse:
- depois daí, ele não vai mais pra lugar algum.
até hoje não sei porque papai sempre foi tão burro.
pouco depois desse dia, a enfermeira chegou de manhã cedo e encontrou Vovô morto no meio da sala, com um tiro na cabeça. os policiais foram incisivos na versão de suicídio, e a perícia confirmou. fiquei feliz, porque isso provava de uma vez por todas que o Vovô podia sim andar e fazer coisas sozinho, como se suicidar com um tiro na cabeça. meus pais ouviram isso dos policiais perplexos:
- nunca poderíamos imaginar!
- que mentira! - gritei. - eu digo isso pra vocês há anos!
mas os policiais também não ouvem crianças.
o revólver que Vovô usou era uma relíquia da segunda guerra. eu sabia que a Ruth guardava ele na casa dela, era presente. mas não disse nada.
também não disse nada quando Ruth mentiu pros policiais:
- não, não estive aqui ontem.
eu sabia - e ela sabia que eu sabia - que o Vovô jamais se levantaria sozinho sem o perfume dela pela casa.
eu sempre soube que Vovô amou nós dois mais do que tudo. entrei na bienal de artes da escola porque sabia que o Vovô era o único que entendia e gostava dos meus desenhos.
ele dizia:
- que bom que a guerra não afetou sua arte, Ernie.
na verdade, paguei minha faculdade com dinheiro de ilustrações vendidas.
não vejo papai há cinco anos. casou de novo e eu tenho três irmãos que nunca conheci.
mamãe continua amargurada e sozinha, remoendo rancor da vida. como sempre esteve, aliás.
eu visito Ruth todas as vezes que venho à cidade. a velhice lhe caiu bem.
caminhamos juntos, e vamos visitar o túmulo de Vovô.
fizemos uma mini-lápide clandestina ao lado, pra Marvin.
numa dessas visitas, avistamos um anão velhinho colocando flores no túmulo do Vovô. nos escondemos até ele ir embora.
não perguntamos se seu nome era Ernie. se fosse, aí sim teríamos um surto.
ainda tento não deixar a guerra afetar minha arte.
_______________________________
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Nina.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
castles made of sand.
me leva pela mão, abre minhas portas.
escancara minhas janelas,
eu preciso: luz e visão.
suga com seus lábios a neblina e o sono dos meus olhos.
me faz enxergar.
me carrega contigo,
me leva nas costas.
juro tentar não pesar.
serei tua, toda tua: ordena.
qualquer coisa,
só preciso seguir suas pegadas na areia,
por favor me espera.
me leva pela mão, abre minhas pernas.
não quero caminhar no escuro:
acende mil velas.
não posso evitar, meus castelos são de areia,
fico torcendo pra nenhum vento passar.
preciso aprender a não precisar.
enquanto isso, me leva nas costas:
prometo não pesar.
escancara minhas janelas,
eu preciso: luz e visão.
suga com seus lábios a neblina e o sono dos meus olhos.
me faz enxergar.
me carrega contigo,
me leva nas costas.
juro tentar não pesar.
serei tua, toda tua: ordena.
qualquer coisa,
só preciso seguir suas pegadas na areia,
por favor me espera.
me leva pela mão, abre minhas pernas.
não quero caminhar no escuro:
acende mil velas.
não posso evitar, meus castelos são de areia,
fico torcendo pra nenhum vento passar.
preciso aprender a não precisar.
enquanto isso, me leva nas costas:
prometo não pesar.
Postado por
Nina.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Lucita.
.
eu sempre sabia quando Lucita viria. meu estômago avisava.
sentava no parapeito da janela e esperava pelo barulho dos saltos nos degraus.
clec. clec. clec.
ela sempre parava na metade da escada para acender um cigarro. Lucita tinha mania de chegar fumando. um dia, num encontro casual, me confessou:
- detrás de toda essa fumaça me sinto protegida.
quando eu abria a porta, me afogava em toda aquela enchente de cheiros e cores que vinham com ela. reparava sempre primeiro nos lábios.
lábios. Lucita nunca me deixou beijá-la na boca.
nesses encontros furtivos no fim da tarde, nunca proferia palavra. entrava, terminava de fumar apoiada no mesmo parapeito das minhas horas de espera. eu apenas olhava, esperando também mudo sua atenção se voltar para mim.
Lucita nunca dizia nada. só quando nos encontrávamos socialmente. olá, como vai, como anda o emprego, a casa, o cachorro, o marido. hoje faz sol, amanhã talvez chova. tem ido à praia, tem visto filmes, o camarão daqui é ótimo. a mulher desses encontros cheirava diferente. sorria diferente. a minha Lucita era só minha: sem proferir uma só palavra.
apagava o cigarro no meu vaso de planta. eu gemia inutilmente.
- na espada de são jorge não!
ela ria. nem se eu dividisse a casa com muitas outras espadas de são jorge, não estaria protegido contra aquele riso.
lentamente tirava peça por peça de roupa. ela gostava de se exibir, gostava de saber que eu a olhava com desejo e devoção, enquanto desenrolava do longo pescoço contas e contas e contas vermelhas. da cor dos lábios que me eram proibidos.
não tirava os sapatos.
clec. clec.
caminhava pela sala, para me mostrar seu porte de deusa, sua pele reluzindo, negra.
na única vez em que quis ignorar o ritual e avançar com avidez sobre seu corpo, - sacrilégio - o encanto foi quebrado: Lucita, sempre calma, me escondeu sua nudez novamente atrás das contas e peças de roupa, e saiu porta afora. não tornou a aparecer por meses. tortura.
inegável: Lucita soube me adestrar. com paciência, bitucas de cigarro na minha espada de são jorge e sorrisos perigosos.
nas festas de confraternização da empresa, ela gostava de fingir que mal lembrava meu nome. talvez não lembrasse mesmo.
depois de passear nua pela minha sala, estalando os saltos pelo chão de madeira, Lucita sentava no sofá e abria as pernas.
aqueles lábios sim, podiam ser meus. e mais nada me era permitido: nem um toque, nem um outro contato sequer com seu corpo. apenas nosso beijo, meus lábios e os lábios permitidos. eu ficaria ali, com minha boca entre suas pernas, num beijo paciente e eterno. mas Lucita perdia toda a pose nessa hora. me arrancava cabelos, me arranhava as costas, me puxava pelos ombros como se quisesse me engolir com aqueles lábios. então enroscava as pernas ao redor do meu corpo, e eu finalmente conseguia arrancar algum som dela que não risos zombeteiros - essa era minha vitória: fazer Lucita emitir aquele único suspiro.
depois, com a habitual falta de piedade, me afastava com os pés e acendia outro cigarro - me expulsava assim do meu templo, seu corpo. eu me resignava. essa foi nossa única forma de contato por todos esses anos. meus anos mais felizes. minha Lucita, meus lábios proibidos e meus lábios permitidos. o que eu faria sem eles? tantas promessas fiz à esses lábios, promessas caladas no escuro da sala. promessas que Lucita nunca pareceu interessada em ouvir.
fiquei sabendo da morte do marido. nada digno de páginas policiais; mas muito pertinente para as fofocas de escritório: um vidro de remédios e coração fraco. não fui ao velório. acho que tive medo de descobrir qual seria seu estado; não suportaria vê-la derramar lágrimas por outro.
apareceu uns dias depois lá em casa. mas não a minha Lucita, a outra, Maria Lúcia. a sem perfume.
veio pedir minhas malas italianas emprestadas. ela sabia: eu nunca as usaria enquanto houvesse ainda a possibilidade de certos saltos ecoarem na minha escada. perguntei se ia viajar, querendo perguntar se ela não me abriria as pernas antes de partir.
Maria Lúcia não sorria como Lucita. disse sucintamente que gastaria o dinheiro do falecido viajando. já vendi minha parte nos negócios, boa sorte, obrigada pelas malas e adeus.
por impulso, perguntei se ela casaria comigo.
respondeu sem mudar de expressão:
- sim.
foi então que percebi. Maria Lúcia casaria comigo, mas eu queria Lucita.
perdi as duas, e minhas malas: nenhuma delas jamais retornou.
a última coisa que consegui dizer antes que os saltos sumissem escada abaixo:
- agora entendo porque seu marido se matou.
só Lucita sorriu.
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eu sempre sabia quando Lucita viria. meu estômago avisava.
sentava no parapeito da janela e esperava pelo barulho dos saltos nos degraus.
clec. clec. clec.
ela sempre parava na metade da escada para acender um cigarro. Lucita tinha mania de chegar fumando. um dia, num encontro casual, me confessou:
- detrás de toda essa fumaça me sinto protegida.
quando eu abria a porta, me afogava em toda aquela enchente de cheiros e cores que vinham com ela. reparava sempre primeiro nos lábios.
lábios. Lucita nunca me deixou beijá-la na boca.
nesses encontros furtivos no fim da tarde, nunca proferia palavra. entrava, terminava de fumar apoiada no mesmo parapeito das minhas horas de espera. eu apenas olhava, esperando também mudo sua atenção se voltar para mim.
Lucita nunca dizia nada. só quando nos encontrávamos socialmente. olá, como vai, como anda o emprego, a casa, o cachorro, o marido. hoje faz sol, amanhã talvez chova. tem ido à praia, tem visto filmes, o camarão daqui é ótimo. a mulher desses encontros cheirava diferente. sorria diferente. a minha Lucita era só minha: sem proferir uma só palavra.
apagava o cigarro no meu vaso de planta. eu gemia inutilmente.
- na espada de são jorge não!
ela ria. nem se eu dividisse a casa com muitas outras espadas de são jorge, não estaria protegido contra aquele riso.
lentamente tirava peça por peça de roupa. ela gostava de se exibir, gostava de saber que eu a olhava com desejo e devoção, enquanto desenrolava do longo pescoço contas e contas e contas vermelhas. da cor dos lábios que me eram proibidos.
não tirava os sapatos.
clec. clec.
caminhava pela sala, para me mostrar seu porte de deusa, sua pele reluzindo, negra.
na única vez em que quis ignorar o ritual e avançar com avidez sobre seu corpo, - sacrilégio - o encanto foi quebrado: Lucita, sempre calma, me escondeu sua nudez novamente atrás das contas e peças de roupa, e saiu porta afora. não tornou a aparecer por meses. tortura.
inegável: Lucita soube me adestrar. com paciência, bitucas de cigarro na minha espada de são jorge e sorrisos perigosos.
nas festas de confraternização da empresa, ela gostava de fingir que mal lembrava meu nome. talvez não lembrasse mesmo.
depois de passear nua pela minha sala, estalando os saltos pelo chão de madeira, Lucita sentava no sofá e abria as pernas.
aqueles lábios sim, podiam ser meus. e mais nada me era permitido: nem um toque, nem um outro contato sequer com seu corpo. apenas nosso beijo, meus lábios e os lábios permitidos. eu ficaria ali, com minha boca entre suas pernas, num beijo paciente e eterno. mas Lucita perdia toda a pose nessa hora. me arrancava cabelos, me arranhava as costas, me puxava pelos ombros como se quisesse me engolir com aqueles lábios. então enroscava as pernas ao redor do meu corpo, e eu finalmente conseguia arrancar algum som dela que não risos zombeteiros - essa era minha vitória: fazer Lucita emitir aquele único suspiro.
depois, com a habitual falta de piedade, me afastava com os pés e acendia outro cigarro - me expulsava assim do meu templo, seu corpo. eu me resignava. essa foi nossa única forma de contato por todos esses anos. meus anos mais felizes. minha Lucita, meus lábios proibidos e meus lábios permitidos. o que eu faria sem eles? tantas promessas fiz à esses lábios, promessas caladas no escuro da sala. promessas que Lucita nunca pareceu interessada em ouvir.
fiquei sabendo da morte do marido. nada digno de páginas policiais; mas muito pertinente para as fofocas de escritório: um vidro de remédios e coração fraco. não fui ao velório. acho que tive medo de descobrir qual seria seu estado; não suportaria vê-la derramar lágrimas por outro.
apareceu uns dias depois lá em casa. mas não a minha Lucita, a outra, Maria Lúcia. a sem perfume.
veio pedir minhas malas italianas emprestadas. ela sabia: eu nunca as usaria enquanto houvesse ainda a possibilidade de certos saltos ecoarem na minha escada. perguntei se ia viajar, querendo perguntar se ela não me abriria as pernas antes de partir.
Maria Lúcia não sorria como Lucita. disse sucintamente que gastaria o dinheiro do falecido viajando. já vendi minha parte nos negócios, boa sorte, obrigada pelas malas e adeus.
por impulso, perguntei se ela casaria comigo.
respondeu sem mudar de expressão:
- sim.
foi então que percebi. Maria Lúcia casaria comigo, mas eu queria Lucita.
perdi as duas, e minhas malas: nenhuma delas jamais retornou.
a última coisa que consegui dizer antes que os saltos sumissem escada abaixo:
- agora entendo porque seu marido se matou.
só Lucita sorriu.
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